segunda-feira, 23 de junho de 2008

MEME NO SESC

Pois enfrentei o frio e a gripe e me fui para o teatro, que é uma das únicas coisas que consegue me tirar de casa. Como é bom ir ao teatro. Me fui para o SESC no sábado assistir a mais recente criação do Grupo Meme, concebido, dirigido e coreografado por Paulo Guimarães. Lamento não ter visto "BU", seu trabalho anterior, assim poderia conhecer um pouco mais sobre o trabalho do meu amigo Laco.

Antes de entrar no assunto, propriamente dito, quero fazer dois comentários. Um: eu estava gripado, tossi três ou quatro vezes. Talvez, cinco. Me senti um chato completo. Minha culpa foi atenuada por que estava na platéia o famoso "fotógrafo chato", aquele que por inexperiência ou excesso de zelo, quer fotografar a peça inteira como se estivesse filmando o espetáculo. Pois tinha um assim na platéia nesta noite. O espetáculo completamente intimista e estalo constante da máquina. E ele sentado, muito bem posicionado, no centro da platéia. De última. Como de última é também o segundo comentário. O palco do SESC não permite cenas no chão. Da terceira fila pra trás ninguém enxerga nada. Se numa peça de teatro isso é um problema sério, porque se os atores estão em pé eles sem as pernas, sem acocam se transformam no máximo em uma cabeça. Se deitam, somem. Agora imagine num espetáculo de na dança que trabalhar o tempo inteiro com estas variações. Impossível. O palco prejudica o espetáculo. Isso é o que dá construir auditórios ao invés de teatros. Os arquitetos e engenheiros tem que saber que tudo o se faz num teatro é possível de ser feito num teatro mas o contrário nem sempre é possível.
Bem, agora vamos ao espetáculo.
BREVE UM COMENTÁRIO SOBRE O ESPETÁCULO TERESINHAS. AGUARDEM.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

ÉDIPO - UMA AULA DE TRAGÉDIA

Em breve um comentário crítico sobre a peça Édipo, encenada sob direção de Luciano Alabarse que também é quem assina a adaptação, já que o espetaculo é composto pela obra Édipo Rei e excertos de Édipo em Colono.

domingo, 18 de maio de 2008

BABEL GENET

Pois eu estava na concorridíssima estréia de BABEL GENET no Teatro Renascença. A peça, dirigida por Humberto Vieira, é sua reentrée na cena portoalegrense depois de longa e voluntária ausência desde o seu longinqüo Viagem ao Centro da Terra e sua encenação de Memory Motel. O primeiro vi no Teatro de Câmara com Renato Campão e o segundo no Renascença, com a Adriane Mottola e Zé Adão Barbosa. O primeiro continha textos do Marquês de Sade, e o segundo Charles Bukowski. Coerente com esta trajetória, Humberto coloca em cena agora sua visão de Jean Genet.
Não perca, em alguns dias, a continuação do comentário exclusivo de Modesto Fortuna. Abaixo um release do espetáculo:

Marginalidade, liminalidade e exclusão são os temas que o povo da foto aí vai debater em cena a partir do dia 16, com a estréia no Teatro Renascença de BABEL GENET. Um mergulho na vida e na obra do transgressor escritor francês Jean Genet (1910 - 1986).
Babel Genet pretende lançar um olhar poético para o universo do autor de Diário de um Ladrão, Querelle e Nossa Senhora das Flores. Além do elenco formado por Felipe Nicolai, Mirna Spritzer, João Pedro Gil, Adriane Mottola, Jezebel de Carli e Denis Gosch, a montagem recupera o recurso cênico do coro grego, com nada menos do que 19 integrantes. A equipe técnica da peça também reúne gente legal, como Zoé Degani na cenografia, Carlota Albuquerque assinando a coreografia e Thedy Corrêa (vocalista da banda Nenhum de Nós) respondendo pela direção musical.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

ANTÍGONA BR


Sei que parece sacanagem ir ver peça de colega no segundo dia, mas não deu para ir no primeiro e ganhei um convite para a segunda apresentação de ANTÍGONA BR que aconteceu no magnífico Theatro São Pedro. A peça tem direção de Jessé Oliveira, de quem eu posso dizer que acompanho o trabalho pois tenho visto muitas de suas produções, inclusive sua montagem anterior à frente deste mesmo Grupo Caixa Preta, HAMLET SINCRÉTICO. Aliás, mantendo uma tendência atual, perceptível em várias peças, esta ANTÍGONA BR segue na linha encontrada em Hamlet Sincrético. Assim como Enrique Diaz persegue em "A Gaivota" a mesma fonte do seu "Ensaio.Hamlet". E Patrícia Fagundes segue as descobertas do "Sonho..." na sua "Megera...".
ANTÍGONA BR, numa tentativa de aprofundar as idéias e temas já apresentados no espetáculo anterior, oferece ao público uma confusa salada onde os ingredientes são algumas tragédias gregas, muitos elementos da cultura afro-brasileira (capoeira, griot, culto aos orixás, signos, ritos e mitos africanos), catolicismo popular e um pouco de linguagem pop, tudo isso temperado com cantos e músicas afro-brasileiras sob direção Luiz André da Silva.
Colocando de lado os problemas de ritmo desandado, má articulação entre as cenas e a excessiva e prolongada duração do espetáculo, problemas estes que são totalmente contornáveis na sequência das apresentações, a nova peça do Caixa Preta encontra-se assentada na dramaturgia pra lá de confusa assinada por Viviane Juguero, na minha opinião um dos maiores problemas do espetáculo.
Os figurinos de Raquel Capeletto são excelentes, dão colorido, brilho e auxiliam na composição e na identificação dos personagens. A iluminação também aparece de maneira eficiente. As coreografias de Joca Vergo, além de eficientes, dão brilho ao espetáculo, mas padecem também do mal da confusão ou falta de clareza.
A direção de Jessé Oliveira apresenta lances surpreendentes, de altíssima criatividade, entremeados com momentos completamente perdidos e vazios onde se percebe que o diretor ou não teve tempo para pensar melhor a respeito, ou realmente não conseguiu definir a contento. Uma direção de altos e baixos, problematizada por uma dramaturgia sem clareza que pretendeu abarcar muitas histórias de uma só vez, mas também pelas escolhas feitas pelo diretor, como é o caso do inexplicável uso de duas atrizes para representar Antígona.
O elenco é um caso à parte. Acompanho o trabalho de alguns atores desde TRANSEGUN e, por incrível que possa parecer, em alguns não identifico crescimento. Continuam os mesmos amadores de sempre. Gestos mal acabados, gritaria exagerada, dicção ruim, corpo sem presença. Ou se exigem pouco e se vêem como amadores, ou estão sendo pouco puxados pela direção. Desta montagem cabe destacar apenas o trabalho de Lucila Clemente que fez uma belíssima composição para o seu personagem no coro dos velhos. Quanto aos outros, se ninguém brilha, ninguém compromete. O que, cá entre nós, é muito pouco.
Pra concluir, acho que o trabalho de Jessé não terminou. Ainda tem muita coisa pela frente se quiser pelo menos aproximar-se da realização anterior.
M.F.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

A COMÉDIA DOS ERROS - UM ACERTO COM POUCO RISO



Sei que minha grande amiga e colega Adriane Mottola há muito tempo acalenta a idéia de encenar A COMÉDIA DOS ERROS. Desde os tempos do Decameron, quando a conversa girava em torno de que peça poderíamos montar, essa possibilidade já era citada. E agora, finalmente, seu sonho está em cena. E somente isto já seria um fato prodigioso. Está em cartaz a ousada encenação que a diretora Adriane Mottola, corajosamente bota na roda como sua proposta para elucidar a seguinte questão: como se daria a adaptação, a aproximação, da forma elisabetana, que passados quinhentos anos já podemos chamar de clássica, ao gosto do público moderno. Como encenar Skakespeare sem ser chato? Impossível não comparar quando somos (beneficamente) assolados por montagens dos clássicos shakespearianos. Ficando apenas no âmbito da comédia, pode-se dizer que: enquanto Daniela Carmona e Adriano Baseggio escolheram apostar na fantasia onírica e campestre e na magia incandescente das fadas e Patrícia Fagundes da preferência ao caminho da comunicação agíl e movimentada dos cabarés e casas noturnas, Adriane vai fundo na proposta de modernização, aproveita seu trabalho e estudos de teatro contemporâneo para contemporaneizar Shakespeare.
Montagem super bem realizada com figurinos, como sempre, impecáveis de Coca Serpa. Cenários sugestivos e bem construídos. A iluminação franciscana mas eficiente.
A direção de Adriane Mottola é segura e resulta num espetáculo limpo, bem articulado, mas que ao ver peca pela escolha da tradução de Barbara Heliodora. Pode ser uma boa jogada de marketing, mas o texto versificado choca-se com a proposta ultra moderna da marcação coreografada.
Assisti a terceira apresentação da peça. A primeira realizada numa segunda-feira. Os erros não estavam apenas no título. Aconteceram vários tropeços durante a apresentação. O espetáculo estava frio. Intimidado. Sem ritmo. coisas que não significam absolutamente nada, simplesmente porque é assim que funciona. Na terceira apresentação uma peça está engatinhando a procura de um sentido, de um ritmo e de uma conformação particular que só vai atingir lá pela viségima apresentação. Fora isso, senti falta da comédia. Do riso provocado pelas situações cômicas. A platéia sorria. O elenco esforçava-se visivelmente na tentativa de parecer engraçados. Mas a explosão sonora das risadas não acontecia. Talvez por causa do próprio esforço. Destaque para a atriz Janaina Pelizzon que aparece num papel pequeno mas muito bem aproveitado. Ao vê-la em cena, lembrei do filme "Quero Ser John Malkovitch", e pensei: quero ser Janaina Pelizzon. Sem esforço, com um "time" perfeito.
Resumindo, trata-se de uma produção de alto nível, espetáculo de puro teatro, bem realizado e saboroso, mas esbarra na falta de comédia, talvez por ficar tri-partido entre o contemporianismo das marcas coreografadas, o texto mantido em versos e o esforço exagerado de alguns atores para tornarem-se engraçados.
M.F.
Foto: Marcos Nagelsten zh
Aparecem na foto: Janaina Pelizzon e Sofia Salvatori

quinta-feira, 24 de abril de 2008

PENÉLOPE BLOOM PARA POUCOS


Muito difícil, dificílimo, comentar peça de ex-mulher. Se digo que não gostei disso ou daquilo, será por causa de mágoas do passado ou do presente. Se falo bem, é pra disfarçar os mesmos ressentimentos. Mas, no meu rápido cursinho de crítica teatral, Dona Bárbara ensinou que o crítico deve presar, acima de tudo a isenção. Então, o fato é que achei o espetáculo bonito e bem acabado, mas não gostei da peça. Depois de meia hora sem acontecer nada, foi um martírio esperar os 45 minutos restantes para o final do espetáculo, não só por se tratar de um espetáculo "difícil", mas principalmente por causa de sua verborragia e ausência de alterações de ritmo. A longa queixa e divagação da Sra. Bloom começam e terminam praticamente inalteradas. Além disso, pude presenciar um choque entre dois tipos de teatro diferentes: a brasileira, Maria Falkembach, mostrando um teatro moderno, físico, com partituras vocais e corporais, dando seguimento a sua pesquisa na interface da dança e do teatro, enquanto que a atriz costa-riquenha, Vicky Monteiro, em que pese seu esforço aparente para fisicalisar algumas ações, permanece o que chamamos de "atriz de texto", o que provavelmente está mais vinculado a sua larga vivência teatral naquele país. Enquanto esta última mantém durante todo o tempo uma sólida quarta parede, a primeira rompe esta convenção por diversas vezes. O embate destas duas correntes teatrais, que poderia ser benéfico, na realidade da cena não favorece o espetáculo. Vicky demonstra claramente suas qualidades vocais e expressivas e Maria Falkembach, que ja tive oportunidade de dirigir em diversas ocasiões, mostra maturidade em cena. Pena que seja colocada na condição de coadjuvante, de uma espécie de espelho da verdadeira Molly Bloom, que seria vivida por Vicky Monteiro.
A peça se baseia na última parte do livro "ULISSES" de James Joyce, que é quando o Sr. Bloom deita e dorme e sua esposa, Molly, desperta e recapitula o dia e parte de sua vida, num fluxo psíquico entre lúcida e ilúcida. Não li o livro de Joyce, mas sei que ele tem fama de literatura "difícil" que beira o incompreensível e dedicado ao entendimento apenas para eruditos. Sendo que segundo alguns críticos, a tradução da edição brasileira, realizada por Antonio Houaisss, complica ainda mais o entendimento. Tudo isso empresta ao livro um pouco da síndrome de "roupa nova do rei", a qual se faz presente por extensão, também na peça em questão.
A iluminação, de Mirco Zanini, talvez por opção, talvez devido aos poucos recursos da sala, é apenas protocolar. O cenário de Rudinei Morales, é discreto, bem acabado e se coaduna com as necessidades do espetáculo. Poderia ter mais "viagem", um pouco mais de arte e refinamento. A trilha sonora de Leandro Maia é precisa, discreta e presente salientando momentos e propondo climas. O figurino feito à seis mãos, por Liane Venturella, Sandra Possani e Chico Macalão, em que pese a breguice do penhoir ser igual a colcha, é de muito bom gosto e acrescenta beleza e plasticidade ao movimento das atrizes que tiram e colocam roupas o tempo inteiro.
A direção de Gerardo Bejarano é limpíssima e, ao meu ver, comete os seguintes pecados: não se define quanto ao estilo de interpretação, permite que o ritmo do espetáculo se mantenha o mesmo durante praticamente toda a peça; e, finalmente, privilegia a verborragia em detrimento da proposta físico-corporal. Cria um espetáculo sem muitas nuanças e não ilumina a difícil obra em que se baseia, mantendo-a elitizada e acessível somente para poucos entendidos.

MAIS UM SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO



Quando as cortinas do Teatro Renascença se abrem e surgem os primeiros sons, e inicia-se a cena de abertura desta nova montagem de O SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO, dirigida a quatro mãos por Daniela Carmona e Adriano Basegio, tem-se a maravilhosa impressão de que participaremos de um espetáculo inesquecível. A abertura é simplesmente primorosa em todos os seus elementos cênicos e prenuncia a magia e encantamento que se irradiarão do grande carvalho da floresta em direção a platéia. Muito acertadamente a dupla de diretores aposta na fábula como centro da concepção do espetáculo e como diz o jornalista Renato Mendonça, é "impossível você não se sentir imerso em um ambiente de sonho, perdido (ou achado) em uma floresta".
O crítico literário Harold Bloom diz que Shakespeare escreveu esta obra "provavelmente, sob encomenda, para homenagear um casamento entre nobres" e segue afirmando que trata-se, sem dúvida, de sua primeira obra-prima, perfeita, uma de suas peças que apresentam força e originalidade admiráveis". Do alto da minha ignorância, me permito discordar do professor Bloom. Se pensarmos em termos de análise literária são inegáveis e perceptíveis os méritos estilísticos do texto e indiscutível a genialidade do autor inglês. Mas, colocando-me apenas como um mero espectador que recebe uma encenação do texto em pleno século XXI, fica difícil não ver no texto a ingenuidade de uma novela das sete e uma excessiva falação literária associada a uma repetição de idéias manjadas.
Peço antecipadas desculpas por traçar, às vezes, comparações entre esta montagem e aquela realizada pela diretora Patrícia Fagundes, mas devido a proximidade temporal de uma com a outra isto trona-se inevitável, e acredito que não há espectador que tenha visto as duas peças, que não faça semelhante analogia entre os dois espetáculos. Tudo isso para dizer que Antonio Rabadan, bem ao contrário dos elementos do outro "Sonho...", desta vez acerta em cheio na concepção visual do espetáculo. Cenário e figurino contribuem tremendamente para fundamentar a concepção dos diretores. As peças do figurino são, separadamente pequenas obras de arte, e no conjunto compõem a atmosfera perfeita para o enlevo da platéia. O cenário que em Clowssicos era apenas prático, aqui transforma-se nos diversos ambientes sem perder a magia e sem deixar de exercer sua força. Todos estes elogios também devem ser estendidos para a acertadíssima trilha sonora que tem nada mais, nada menos que o nome excelente músico Fábio Mentz. O tarimbado iluminador Fernando Ochôa, na minha opinião, poderia ter concebido uma luz ainda mais apurada para o espetáculo, não se limitando a fazer uma luz apenas bonita e eficiente. Não que eu ache que a luz tenha que aparecer, mas diante soa outros elementos do espetáculo, me parece que a iluminação não brilha como poderia. Mas sei que a luz depende de equipamentos, por isso sou sempre cuidadoso ao falar deste assunto.
A dupla de diretores, como ja disse, acerta na concepção onírica, silvestre e um tanto lasciva, mas descuida da direção dos atores quando permite que as interpretações sejam bastante irregulares. O ritmo do espetáculo vai caindo ao decorrer do tempo junto com o interesse do público, tanto por causa do longo texto, quanto pela ausência de novos estímulos cênicos e cômicos e pela carência de variações nos ritmos da peça. Ao contrário do "Sonho..." da Patrícia, que investia muito mais na comicidade, aqui a parte cômica fica relegada somente a algumas personagens ou núcleos de personagens, e isto resulta em mais lirismo e romantismo e em menos comédia.
No elenco vale destacar positivamente a presença viva e simpática de Adriano Basegio como Puck; da minha queridíssima super atriz Arlete Cunha, em plena forma, que, como diz Renato Mendonça, "resplandece" no papel de Novelo e a jovem Fernanda Nascimento, que empresta carisma e chama atenção para sua fada. O excelente ator Álvaro Rosacosta se apresenta acomodado, exercendo o que eu chamo de interpretação apenas correta e protocolar. Saudade daquele Álvaro do Beijo no Asfalto.
Assim, apesar de um pouco cansativo na sua última meia hora, este "Sonho numa Noite de Verão" tem méritos suficientes para encantar os espectadores e a Cia. do Giro merece mais uma vez os sinceros aplausos por mais esta criação.

MAIÊUTICA



Maiêutica[Do gr. maieutiké (téchne).]Substantivo feminino 1.Processo dialético e pedagógico socrático, em que se multiplicam as perguntas a fim de obter, por indução dos casos particulares e concretos, um conceito geral do objeto em questão. [Cf. ironia socrática.] 2.Obst. V. obstetrícia. (Dicionário Aurélio)


Guadalupe Casal e Maíra Prates, duas jovens atrizes, sob orientação de Maico Silveira, estão em carta em cartaz no Teatro de Arena com MAIÊUTICA. Uma peça curta que pretende explorar "as divergências da relação mãe e filha num passeio poético guiado pela infância", conforme pode ser lido no delicado programa do espetáculo.
As duas atrizes são também as responsáveis pela dramaturgia, que, na minha opinião é o ponto fraco da peça, já que os textos selecionados e/ou a junção deles, não oferece um crescimento, um desenvolvimento progressivo nas idéias que o espetáculo pretende dialogar com o espectador. Não oferece também maiores dificuldades para a interpretação das atrizes. Passeios pelo universo feminino são tão abundantes no teatro quanto as chamadas peças de casal. Ou se encontra, dramaturgicamente, uma idéia com um quê de originalidade ou com textos que aprofundem esta discussão ou se cai na mesmice das coisas já faladas.
A encenação, como tantas outras, conta com poucos recursos, e opta por trabalhar apenas com alguns elementos de cena. O figurino assinado por Guadalupe Casal é apenas funcional. A iluminação, criada por Carol Zimmer, não acrescenta nada, não acentua climas, não vai além de iluminar a cena. Como o diretor não se assume como tal, e chama-se apenas de orientador cênico, não se pode comentar a direção. "Orientação" me parece um eufemismo para não assumir o compromisso com a real direção de uma peça, e também para dividir a responsabilidade com os atores. No caso, as atrizes.
As duas interprétes se mostraram excessivamente tímidas. Talvez por tratar-se da estréia. Com certeza, com a repetição das apresentações, elas irão fortalecendo suas interpretações. Gaudalupe Casal se mostra mais expressiva e apresenta mais nuances quando das acontecem mudanças de idade e de situação. Maíra Prates aparece melhor como criança do que como adulta ou uma mulher solitária mãe de uma adolescente. Transita com demasiada semelhança pelas direfentes fases solicitadas pelo texto.
O resultado é uma peça que não empolga, que carece de criatividade, de aprofundamento interpretativo, de direção e de uma dramaturgia mais sólida e, com a simplicidade de um risco de giz traçar um espetáculo com uma teatralidade mais exuberante.

ALZIRA POWER - DE VOLTA AO PASSADO






No último domingo fui ao Theatro São Pedro assistir Cristina Pereira interpretando ALZIRA POWER, peça escrita em 1969 por Antônio Bivar. Foi uma verdadeira viagem ao passado, pois no longinqüo ano de 1977, tive minha estréia como diretor justamente com esta peça. No elenco estavam Júlio Conte e Rosa Maria Lima. Velhos tempos.
Antônio Bivar, participante ativo do movimento de contra-cultura dos anos 60 e 70, ganhou um prêmio Molière como autor de "ABRE A JANELA E DEIXA ENTRAR O AR PURO E O SOL DA MANHÃ". Com a grana do prêmio pegou sua mochila e foi pra Londres viver as loucuras da geração paz e amor no auge do movimento hippie, flower power, lsd, che guevara e comunidades psicodélicas. Dramaturgo considerado promissor pela crítica, escreveu uma dezena de peças, quase todas numa linha de contestação ao "estabelishment", das quais, "ALZIRA POWER" é uma das mais conhecidas.
A peça, que também atende pelo título de "O Cão Siamês", teve sua estréia em 1969 e conta a história da quarentona e solitária Alzira, que depois de aposentada de seu trabalho nos Correios resolve rebelar-se contra os medíocres parâmetros de uma vidinha classe média, e despeja um pouco de sua agrassividade e toda sua libido quando recebe a visita de Ernesto, simplório vendedor de consórcios de automóveis.
A versão apresentada nesta montagem, que fez sua estréia nacional no Theatro São Pedro, é absolutamente fiel ao texto e as indicações quanto ao cenário, trilha sonora, climas e figurinos utilizados. Nada de novo. A direção de Gustavo Paso se restringe a seguir tudo aquilo que é indicado pelo texto, traçando uma marcação limpa e um espetáculo apenas correto.
O centro por onde gira o espetáculo é a interpretação segura da experiente atriz Cristina Pereira, que prefere explorar a faceta mais aparente e superficial de Alzira, do que descer mais profudamente pela alma da personagem. O vendedor Ernesto é interpretado por Sidney Sampaio, um ator jovem que, se por um lado, não compromete o espetáculo com sua tênue construção, por outro, em momento algum consegue emplogar o público com as idéias que tenta defender durante a peça. Ernesto é mesmo mais "fraco" do que Alzira. Sidney se comporta exatamente assim diante da verve de Cristina Pereira.
Enfim, nada de novo no país Teatro. Quem foi assistir não pode reclamar que perdeu seu dinheiro e seu tempo, e aqueles que não foram também não precisam arrepender-se. Ah! O espetáculo é muitíssimo melhor do que a foto distribuída pela divulgação.

A MEGERA DOMADA




Jamais deixaria de assistir A MEGERA DOMADA, não só porque a diretora, Patrícia Fagundes é minha amiga, mas porque admiro e acompanho o trabalho dela desde o início de sua carreira. Suas peças sempre foram certeza de bom teatro. Além disso, outra grande amiga, a atriz Sandra Possani entrou na peça, como protagonista, substituindo Roberta Savian. Então, assisti o espetáculo na penúltima sessão de sua temporada de estréia no Teatro de Câmara, com casa maravilhosamente lotada.
Dizer que Shakespeare dispensa apresentações é um lugar comum que cabe muito bem aqui neste parágrafo onde eu deveria tecer algumas considerações à respeito deste autor tão estudado, encenado e respeitado no mundo inteiro, e de quem o leitor poderá informar-se em inúmeras páginas da internet. Porém, tendo vivido apenas 52 anos e escrito 35 peças teatrais entre as quais pelo menos 4 obras primas da literatura universal, é natural que nem todas sejam incluídas nesta categoria, e apareçam, na minha mortal opinião, como obras menores dentro da magnifíca obra do chamado bardo inglês.
A MEGERA DOMADA, segundo a bíblia shakespeariana escrita por Harold Bloom, é uma de suas primeiras comédias e é "tanto comédia romântica quanto farsa" pois "a rispidez física entre Kate e Petrucchio possui um apelo básico (farsa), mas o humor que caracteriza seu relacionamento é altamente sofisticado" (comédia romântica). A história da peça, que ja foi apresentada sob a forma de tele-novela com o título de O Cravo e a Rosa, é simplíssima: um pai, Batista decide que a filha mais jovem, Bianca, só casará depois que a filha mais velha, a megera intratável Catarina seja desposada. Petrúcio, um nobre falido, acaba aceitando a mão de Catarina e todas as encrencas que virão junto. Um novelão bem ao gosto burguês (da época e atual)recheado de trocas de identidade, mentiras inverossímeis e duelos verbais espirituosos à moda parisiense, tão afiados quanto anacrônicos.
A encenação é moderna e até mesmo glamourosa, com os atores comportando-se com uma certa displicência naturalmente ensaiada. Penso que Antonio Rabadan se sai melhor com a criação dos figurinos deste espetáculo do que com aqueles que foram criados para o espetáculo anterior, apesar de que é um tanto batida a opção (não sei se dele ou da diretora) de trabalhar com preto, cinza, branco e vermelho. De qualquer maneira, os figurinos são adequados, bonitos e bem acabados. O cenário, ou melhor a ambientação cenográfica, assinada por Paloma Hernandez, se não se destaca, também não atrapalha, servindo as necessidades exigidas pelo espetáculo e auxiliando-o com sua leveza e mobilidade. EduardoKraemer, um dos meus iluminadores favoritos por sua inventividade, se mostra discreto e também a serviço do espetáculo, sem oferecer aquele brilho que ja vi em outras ocasiões.
Esta é a terceira incursão da diretora Patrícia Fagundes pela obra de Shakespeare, já que anteriomente encenou Macbeth, com o subtítulo de Herói-Bandido, depois O Sonho de uma Noite de Verão, e agora coloca em cena esta versão de A Megera Domada. As três montagens buscam recuperar o apelo popular que as obras gozavam na época elisabetana, bem como uma linguagem contemporânea para atingir o espectador moderno. Acho que a busca continua e que o adjetivo "popular" poderia ser analisado à fundo e definido com precisão, assim como a linguagem contemporânea, que não deve ser apenas, tenho certeza, inserir uma canção moderna, mencionar o furacão Catrina e acrescentar alguns cacos ou gírias modernas ao texto. Sem dúvida, a direção de Patrícia Fagundes sobre o espetáculo é firme e bem orientada no sentido de extrair uma teatralidade e uma comunicação viva do espetáculo com a platéia. No entanto, parece seguir (o que aliás, está muito na moda) uma receita, uma fórmula, ja inventada para o espetáculo anterior: a boate no "Sonho..." e a casa de shows, neste.
O elenco, que brilhava e cativava os espectadores no "Sonho...", agora apenas executa com presteza as marcações e determinações cênicas. Todos estão bem, mas o único que brilha e ganha a platéia é Felipe de Paula, que utiliza o corpo, a voz e inventa outros recursos para extrair gargalhadas do público. Explora com eficiência criativa as nuances de seu papel. A turma que arrasava no sonho: Álvaro Vilaverde, Lisandro Belotto (que tinha uma cena impagável) e Leonardo Machado estão apenas desempenhando aquilo que sabem como bons atores que são. No mesmo caso se encontram Carlos Mödinger e Rafael Guerra. A bela Elisa Volpatto está apenas bela e não tira maiores partidos de sua personagem, contentando-se em ser apenas a "mocinha". Heinz Limaverde aparece desconfortável e é o mais displicente em cena, não atingindo nem de perto sua performance da peça anterior, tampouco aquilo que se espera ao ver seu nome na ficha técnica, pois trata-se de um dos melhores atores que conheço, com seu talento ja testado e comprovado em uma gama variadíssima de espetáculos. Sandra Possani, ainda preocupada com as marcas e textos, vai demorar mais algumas apresentações para mostrar seu inegável talento.
O resultado é um espetáculo bonito, agradável, que não empolga em momento algum. Não decola. É, certamente ágil, divertido e comunicativo, mas não atinge a potencialidade cômica do texto, que aliás, é pronunciado pelos atores, salvo raras exceções, de cabo a rabo, com excessiva velocidade. Enfim, tanto por seu conteúdo, quanto por sua forma atraente e glamourosa, é uma peça destinada ao sucesso.

A CRÍTICA DA CRÍTICA



Depois de escutar com o devido respeito e atenção as palavras proferidas na palestra apresentada na noite de terça (8/4) no Teatro do SESC, pela Sra. Bárbara Heliodora, que como apregoa a divulgação trata-se de “uma das críticas teatrais mais temidas e respeitadas do Brasil”, fiquei ruminando algumas coisas: é absolutamente inegável o profundo conhecimento técnico, teórico e prático que ela possui sobre o teatro. Sua vasta cultura, erudição, preparo e brilhantismo ficaram patentes na leitura do texto que ela criou, creio eu, especialmente para o encontro promovido pelo ARTESESC. Defendeu a função da crítica, com um texto elegante, claro, no qual demonstrava suas crenças através de um pensamento fluente, inteligentemente encadeado, sem deixar de ser um tanto esquemático. É indiscutível a vivência teatral de quem assiste, anualmente, perto de 100 espetáculos, como ela mesma afirmou. É simplesmente incontestável a importância do nome Bárbara Heliodora tanto para o exercício da crítica em particular, quanto para o teatro brasileiro em geral. Dona Bárbara é uma apaixonada confessa pela arte teatral. Diz amar o teatro e torna visível este amor com a maneira inflamada e parcial com que manifesta sua visão sobre o que considera bom ou ruim na arte dramática. Na verdade, se detecta que ela ama mesmo o bom teatro, tanto quanto detesta aquele teatro que na sua visão pessoal é ruim. Sua veemência atinge as raias do dogmatismo e da pretensão de ser a dona de uma verdade única, embora negue isso com a mesma ênfase. Para quem lê, mesmo que esporadicamente as suas críticas nas páginas do Jornal O Globo, como é o meu caso, é possível perceber, nas linhas e nas entrelinhas, que por vezes, ela manda às favas a sua apregoada isenção e objetividade, e se deixa levar por momentos de extrema vaidade pessoal, arrogância, crueldade, deboche e até mesmo uma transbordante e destrutiva maldade. Ela diz que todos somos críticos informais quando assistimos qualquer obra de arte, e pensamos se gostamos ou não gostamos, ou quando expressamos nossa opinião numa mesa de bar, o que não deixa de ser uma verdade. Mas querer comparar uma discussão entre amigos num bar com o preto sobre o branco das páginas de um jornal de circulação nacional é, no mínimo, querer minimizar o seu poder diante da platéia.

FIM DE JOGO



Meu querido professor Luiz Paulo Vasconcellos assina a direção do espetáculo "FIM DE JOGO", de Samuel Beckett, com a presença de Zé Adão Barbosa à frente de um jovem elenco. A montagem estreou em junho de 2007 inaugurando a Sala de Apresentações do Tepa (Teatro Escola de Porto Alegre).
O diretor é figura carimbada na história do teatro portoalegrense, professor universitário, duas vezes coordenador de artes cênicas, autor de um dicionário de teatro e dono de um extenso currículo como diretor e ator. Conheci-o pelos idos de 1976 quando foi meu professor e tive oportunidade de assistir vários de seus trabalhos desde aquela época. Na encenação deste "jogo" beckttiano me parece que o Prof. Luiz Paulo, não quis arriscar um milímetro das suas fichas. Construiu uma montagem esquemática, quadradinha, eficiente, comunicativa seguindo fielmente as rubricas e indicações do autor. É quase um manual para se entender Beckett. É uma peça bem feita, com tudo no seu lugar, orientada por quem entende do riscado, por alguém que conhece a carpintaria teatral mas prefere ficar na comodidade careta do que procurar novos sentidos e possibilidades.
Para quem, assistiu a inesquecível montagem da Terreira da Tribo, com a hors concours Arlete Cunha no papel Hamm e Paulo Flôres vivendo Clov, ou a montagem de Rubens Rusche que esteve na terceira edição do PoA em Cena, em 1996, ou ainda, a belo ambiente criado para a encenação de Gerald Thomas, esta atual versão da peça nada acrescenta. Aliás, só não deixa a desejar, pela interpretação irretocável do excelente ator Zé Adão Barbosa. Com certeza auxiliado pela talentosa atriz Sandra Dani e pela caracterização precisa criada por Nikki, um verdadeiro mago da maquiagem, Zé consegue em pequenos detalhes de voz e expressão nos comunicar a dimensão da amargura, tédio, ressentimento e inutilidade da vida, contida nesta que é uma das peças mais conhecidas de Samuel Beckett. Um agradabilíssimo prazer assistir a suave entrega de Zé Adão Barbosa em cena. Jeffie Lopes, um pouco pela sua juventude, outro tanto por sua... tem dificuldade em transmitir o drama vivido por Clov, não tem a dimensão humana da personagem. Já os pais de Hamm, Crissiani Sgarbi e Vinicius Meneguzzi, se beneficiam da caracterização e aparecem bem em seus latões.
O cenário criado pelo diretor e por Jeffie Lopes imita a peça e segue as determinações e exigências da peça tornando-se apenas um arremedo do que poderia ser o ambiente que abriga o embate entre Hamm e Clov. Peca na altura, como aliás a maioria dos cenários das peças de Porto Alegre. E, peca na cor, que, como disse uma amiga minha, é "cor de cocô". A iluminação do criativo Eduardo Kraemer é bonita e eficiente.
Todos estão de parabéns pela realização. Um espetáculo sólido, honestíssimo, que conta com a interpretação poderosa de Zé Adão Barbosa e a mão segura do Prof. Luiz Paulo. Parabéns ao Tepa pela iniciativa de produzir um espetáculo e inaugurar sua Sala de apresentações.

E LÁ SE VAI MAIS UM PORTO VERÃO ALEGRE



Iniciado em 07 de janeiro, encerrou bem no finzinho de fevereiro, mais uma edição do Porto Verão Alegre, a nona edição desta engenhosa idéia do trio Rogério Beretta, Flávio Bicca e Zé Victor Castiel, que enxergaram uma modificação dos hábitos de verão dos portoalegrenses e vislumbraram um nicho de público para o teatro nos meses de janeiro e fevereiro. Assim, esta é a nona edição do evento que organiza e coordena uma mega programação cada vez mais inchada e recheada de trabalhos, no mínimo, de gosto duvidoso. Se por um lado, foi uma sacada genial que, inegavelmente, contribui com a movimentação teatral no período de verão, por outro podemos nos perguntar se a extensa programação não compromete a eficácia da ação.
Convenhamos que 0 público tem dar sorte para encontrar, no meio de tanta coisa ruim, as poucas boas atrações da programação. Ou então, ele, o público, é um pouquinho mais informado e compra ingressos daqueles espetáculos que ele, o público, mais conhece e/ou ouviu falar. Corre-se o risco de assitir algo que faça o vivente nunca mais querer pisar num teatro ou, por outra, nunca assistir nada diferente do que os "grandes sucessos".
Talvez, a contribuição fosse maior, se o Porto Verão Alegre se concentrasse mais na qualidade e menos na quantidade.

O VERDADEIRO LOUCO DA RUA DA LADEIRA



Fui ao Teatro do SESC assistir "DIÁLOGOS DE UM LOUCO" para me reencontrar com dois velhos conhecidos: Qorpo Santo, o autor, que me foi apresentado por si mesmo através de suas peças, poesias e textos auto biográficos; e Marcos Barreto, diretor e ator santamariense que aterrizou em Porto Alegre nos idos de 1989. Qorpo Santo conheci ao encenar, em 2005, o espetáculo QURIOZAS QOMÉDIAS, onde reuni várias de suas peças, misturando-as com fatos reais e inventados sobre sua vida a a partir das coisas que ele escreveu sobre si mesmo. Já Marcos Barreto foi meu professor numa oficina de interpretação (no tempo que acontecia ensaios e oficinas de teatro no Auditório Araújo Viana) que ele orientou logo que chegou à cidade trazendo na bagagem e no currículo o aval de ser ex-integrante da Cia. Ópera Seca e ter trabalhado com o super diretor Gerald Thomas. Barreto colocou em cena um memorável espetáculo chamado "LOVEMENBER", no qual assinava o texto, o roteiro e a direção. Mais tarde foi coordenador de descentralização da cultura e diretor da mais complicada edição do Porto Alegre em Cena que ja se viu. Mais recentemente passou a residir no Rio de Janeiro, que foi onde estreou o trabalho apresentado no Teatro do Sesc.
Não tenho como separar emocionalmente o que sinto ao ver uma peça de Qorpo Santo depois do mergulho vertical que fizemos na obra e na vida dele para produzir o espetáculo. Sob este aspecto, não gostei do tratamento que o espetáculo dispensa a Joaquim José de Campos Leão, nem do tom da interpretação que Marcos Barreto para os diversos personagens, pois são superficiais e reproduzem o mesmo pensamento retrógrado que via Qorpo Santo meramente como um louco ou no máximo como um simples personagem bizarro, um "esquisitão", como era chamado pelos seus contemporâneos, ou "o louco manso da Rua da Ladeira" pinçado de uma crônica daquela época e republicada no livro de crônicas "AS AMARGAS, NÃO..." do nosso Álvaro Moreyra. Difícil escrever sobre. Parece que vemos dois QS completamente diferentes. É claro, que entendo que isso é possível, pois se o próprio QS se via e se colocava nas peças como sendo vários, múltiplos de si mesmo, então, é claro que as visões tem que ser diferentes, mas é patente a superficialidade do espetáculo, são patentes as derrapadas e esquecimentos de texto do intérprete que consegue graças ao carisma pessoal extrair algumas risadas da platéia. Achei a dramaturgia de Paulo Bauler fraca na forma e no conteúdo. Achei a proposta cênica e a direção bastante frouxas como convém ao ator que se autodirige e ao diretor que orienta a si mesmo. Faltou uma direção mais firme e exigente com relação aos maneirismos e facilidades do interpréte e que, principalmente, cobrasse que Marcos Barreto tivesse, pelo menos, fôlego para atravesar o espetáculo. Enfim, pra mim, o espetáculo não traduz a atmosfera de uma poética tão feroz e enlouquecida quanto a de Qorpo Santo. O espetáculo da maneira como se apresenta não oferece para o espectador moderno o ser torturado e excitado ao extremo que vivia numa Porto Alegre em formação, que tinha, em 1860, quando ele era adulto, uma população de 13.000 pessoas, das quais menos de um quinto sabiam ler e escrever, uma Porto Alegre com escravos construindo o Mercado Público e a classe rica fazendo doações para a construção do Theatro São Pedro. Os personagens são apresentados por Barreto de forma displicente e debochada, que, de maneira nehuma, passam para o público a dimensão humana de cada um deles. Não aparece o Qorpo Santo erotômano, o Qorpo Santo que fez tremer os tabus da época, que clamava pelo divórcio, pregava a liberdade feminina, e escreveu 17 peças de teatro em menos de um mês e meio e foi interditado pela mulher, e criou seu próprio jornal e imprimiu, e publicou sua própria obra.

NOSSA SENHORA DOS AFOGADOS

Tive um domingo teatral: à tarde fui ao teatro infantil e me diverti vendo Píppi MeiaLonga, e à noite fui assistir o novo trabalho do Núcleo de Formação de Atores do Depósito, o espetáculo Nossa Senhora dos Afogados livremente inspirado na Senhora dos Afogados de Nelson Rodrigues, com direção de Plínio Marcos Rodrigues, cenário de Rudinei Morales, figurinos de Chico de Los Santos e atuação de um grupo de jovens atores, alunos de um curso que pretende ser um Nível II, já que congrega iniciantes com alguma experiência anterior.
Levando em consideração que esta é a primeira direção assinada por Plínio Marcos, posso dizer que ele está no lucro. Realiza um espetáculo com uma concepção clara, baseada na simplicidade, com poucos recursos mas recheada de bons signos teatrais. Fiel as rubricas de Nelson Rodrigues, Plínio cria (ou pretende criar) climas e clímaxes nas cenas e lida razoavelmente bem com a presença do coro que às vezes atrapalha ou interrompe o desonrolar da ação dramática capturando a atenção do espectador em momentos indevidos. Por outro lado, Plínio demonstra dificuldade nas costuras entre as cenas, na limpeza do trabalho de entradas e saídas, na determinação sobre em que momentos o coro deve aparecer e no desenho de um ritmo específico para cada cena e para a peça como um todo.
O cenário de Rudinei Morales, carece de arte, de finalização. Apesar do espaço do Depósito de Teatro ainda se mostrar como um espaço precário, apesar de conhecer o tamanho do orçamento destinado para a montagem, penso que, se por um lado o cenário tem limpeza e equilíbrio, simplicidade e eficiência, por outro, demonstra descuido com a necessidade de beleza plástica e com a idéia de finalização. Chico de Los Santos foi feliz na escolha dos tons de cores que utilizou na composição do figurino e consegue um bom resultado no conjunto.
Mas é no elenco que residem as maiores dificuldades do espetáculo. Minha experiência diz que é sempre melhor misturar jovens talentos com atores mais experimentados, porque desta maneira a tendência é elevar os resultados na área da interpretação. Numa oficina isso raramente vai acontecer. Todos estão no mesmo nível de saber ou de dificuldades para colocar em prática o conhecimento adquirido em oficinas anteriores ou na única peça que realizaram. Assim, descontando a parcela de 50% que sempre cabe as exigências da direção e a interação e comunicação entre diretor e elenco, senti que, embora todos os interprétes tivessem condição de ir mais longe, todos preferiram nadar perto da praia ao ivés de arriscarem-se na arrebentação. Nelson Rodrigues escreveu uma tragédia para vários protagonistas. Tanto pode ser a história vivida pelo pai de família e quase ministro Misael, interpretado por Rui Koetz (que baseou seu personagem na potente voz que brota de sua garganta e não de seu coração, e não rasga sua alma, não se enlemeia na profunda tragédia que a vida trama para o seu personagem, a insuportabilidade de conviver consigo próprio ao cometer um assassinato), mas também pode ser que o protagonista seja o noivo, encarnado por Ricardo Zigomático (que entra bem e vai perdendo a força porque sua interpretação é um tanto exterior e esteriotipada, um tanto insegura, necessitando aprofundar um conjunto de imagens para completar sua visão da personagem e então, permitir que ele possa reproduzir a força da vigança, o filho que vem para vingar a morte da mãe da maneira mais cruel que se possa imaginar). Ou quem sabe a protagonista é a mocinha, a noiva Moema, interpretada por Camila Martins, que, assim como Rossendo Rodrigues e Viviane Falkembach trabalham demasiadamente no mesmo registro do trabalho anterior "ÓPERA DOS MENDIGOS". Também o torturado filho da família, Paulo, vivido por Diego Bittencourt, poderia ser o protagonista da história, ja que esta personagem tem sua história revelada pela peça. Mas Diego atua sempre na mesma nota, tem dificuldades com a pronúncia das palavras, e vai do começo ao fim da peça sofrendo e usando a mesma máscara facial contraída que pouco revela sobre a alma de sua personagem. Kelly Cruz, Daniela Ferraz e Valesca Maffei, sendo que esta última é cria do Depósito, tendo atuado em "O ÚLTIMO CARRO", revesam-se na interpretação da mãe, Dona Eduarda e não atingem grandes vôos, ficando aquém daquilo que poderiam ter rendido e não alcançam a dimensão trágica solicitada pelo papel. Tatiana Moraes teve um momento de crescimento durante os ensaios mas acomodou-se e mostra uma vó louca com pouquíssima loucura e uma certa pressa em soltar o texto. Finalmente, Núbia Quintana, que foi quem criou as máscaras, não se apresenta com força e energia em cena, mas mesmo assim tira algum proveito quando na pele da dona do prostíbulo onde acontece o ato final. Por falar nas máscaras, acho que Nübia realizou um belo trabalho, mas optou por máscaras leves quase engraçadas, que não trazem em si o peso da tragédia vivida pela família de Misael.
O espetáculo é curto, mas mesmo assim não se comunica integralmente com a platéia. E, embora a tragédia não aconteça, tem a força do texto rodrigueano e uma concepção bem delineada que o coloca acima de muitos trabalhos que se vê por aí afora. Parabéns ao Plínio. Parabéns ao elenco e a equipe.

PÍPPI MEIA LONGA

Vou tentar ser bem direto em meu comentário sobre Píppi Meialonga que, cheio de curiosidade, fui assistir, temeroso por estar encarando mais uma peça do nosso combalido teatro infantil. A peça tem direção da minha querida amiga (na verdade, a gente apenas se cumprimenta, mas acho ela uma querida amiga) Moira Stein. A peça é longa e vai perdendo o interesse em seu terço final, sinal de que o(a) adaptador(a), cujo nome não aparece na ficha técnica, não soube ou ficou com pena de cortar acontecimentos para dinamizar a montagem, ou realmente prefiriu manter com este tamanho mesmo.
O grande problema ou questão reside no fato do espetáculo, na minha opinião, não ser fiel a autora. É fiel no conteúdo, ao tamanho do texto quando coloca toda a história do livro dentro do espetáculo e, assim, não frustra a expectativa das crianças. Talvez, seja fiel na forma, ao manter basicamente o cenário que as crianças esperam. Mas não é fiel na essência, na substância... O uso e abuso de personagens tipificados e até certo ponto babacas, a transformação do texto em uma historinha sonsa, a concepção linear e a dinâmica que a diretora imprime ao espetáculo, os figurinos "bem coloridos" e aquele ar de teatro infantil comportado, enfim, a falta de ousadia parece ir contra o âmago da história criada por Astrid Lindgren, que coloca em cena uma menina que faz suas próprias roupas, tem como companheiros um cavalo e um macaco, é destemida a ponto de bater em meninos como a Mônica do Maurício de Souza, enfrenta policiais e recusa-se ir para um lar de crianças, é uma menina que realiza sonhos de liberdade e aventura e além de tudo é feliz. Moira Stein, concebe um espetáculo convencional, baseado em personagens convencionais para apresentar uma menina que pode ser tudo, menos convencional.
Se, por um lado, Tatiana Paganella (que ja vi atuando sob direção de Néstor Monastério em "A VIDA MUDA, cria uma personagem crível, por outro, interpreta completamente sem o brilho e a energia solicitados pela personagem de Astrid Lindgren. Juliano Straliotto e Ágata Baú, ex alunos do Depósito e formados pelo DAD, criaram para suas personagens (certamente com a permissão da diretora) duas personalidades absolutamente esteriotipadas, ja que fingem-se de crianças o tempo todo e transformam os irmãos Tom e Aninha, únicos amigos de Píppi Meialonga, em uma dupla sem graça. As outras personagens seguem e mesma linha conseguindo produzir um esteriótipo ainda pior. Todos executam "tipos", rascunhos de personagens. Menos um. Meu amigo pessoal, Herlon Höltz é uma grata surpresa. Aparece muito bem, principalmente na personalidade que cria para o Ladrão Tonerre. É muito boa e crível a maneira com que Tonerre se desloca pela cena. Corpo, voz e espírito dão credibilidade à personagem. Ponto para o Herlon. Pra mim, ele dá o tom do que poderia ser o espetáculo. Ora, como vamos acreditar na história de uma menina de nove anos que mora sozinha e tem um pai pirata, se não houver um pouco de loucura na forma, na concecpção e nas personagens? Eu não acredito.
Píppy MeiaLonga, a peça, está indicada em algumas categorias do Troféu Tibicuera, premiação oficial da nossa Prefeitura para o teatro infantil local. Então, apesar de perceber várias qualidades no espetáculo, apesar de enxergar a honestidade da proposta de Moira Stein, sou obrigado a pensar no rumo que está tomando o teatro infantil produzido aqui e clamar: onde foram parar a criatividade, a inventividade e a ousadia? Que saudade das montagens infantis do Dilmar Messias, do Luis Henrique Palese, da Irene Brietzke. Onde estão os atores mais experientes que sumiram da peças infantis? Quais as causas do empobrecimento do nosso teatro infantil?

TALENTOS BRUTOS



pequeno comentário sobre O Balcão.

Hoje à tarde fui ao teatrinho do DAD, assistir "O Balcão", clássico de Jean Genet apresentado numa montagem de final de semestre, dirigida por Ana Paula Zanandréa, aluna do Atelier de Criação II, e interpretada por um grupo de alunas + Douglas Carvalho, todos do Atelier de Composição II.
Quando se fala em O Balcão eu lembro, direto, da célebre montagem realizada pela atriz e produtora luso-brasileira Ruth Escobar, dirigida como um extenso ritual por Vitor Garcia. Memorável por diversos motivos, tais como exigir a remodelação total do prédio do teatro onde a encenação foi apresentada, ou o fato de Jean Genet ter vindo ao Brasil para assistir a peça e ter odiado o espetáculo, ameaçando retirar-se no meio da apresentação de estréia. Recordo, também que houve, aqui em Porto Alegre, uma montagem dirigida por Luciano Alabarse. E, lembro, é claro de quem é o autor e sua história e suas outras peças, como As Criadas, Os Biombos e Os Negros.
Pode se dizer que O Balcão é um texto difícil, até mesmo complexo, que bem retrata o tortuoso e atormentado pensamento do autor que quer provocar um choque sensorial tão insólito, quanto belo.
A encenação de Ana Paula, que mantém a pobreza habitual de recursos das montagens dadianas, e isso não é uma crítica a ela, é pra lá de debochada, um tanto confusa e vai perdendo o ritmo no final. Tem cenas bem ensaiadas e "limpas" alternadas com cenas "sujas" e apenas rascunhadas. Ana Paula faz a sua leitura sobre o texto. Apropria-se das idéias que Genet coloca no texto e vomita o seu (dela) próprio Balcão colocando em cena boas idéias que se perdem ou apenas se esboçam. Mais uma peça que tem coreografias. E mais uma vez a coreografia acaba sendo melhor do que o teatro. Talvez por ser mais precisa e por comunicar coisas que os atores não conseguem comunicar. O temível no teatro é a hora do texto. A hora que o ator fala. Sinto que é um momento crucial, na maioria das vezes mal resolvido pelas equipes. Por falar em elenco, deu pra ver que na falta de atores do sexo masculino na turma, Ana Paula teve que realizar a peça com um elenco maciçamente feminino. Mais atrizes para a cena gaúcha. Bastante energia descontrolada, muita gritaria. Todo mundo segurando o espetáculo e o personagem na voz. É bom ver todos experimentando-se, exercendo o fazer teatral. Fato curioso: mais uma vez, em menos de uma semana, percebo o cabelo do ator dividindo a performance com o próprio ator. Desta vez o combate se dá entre Vanessa Silveira e seu maravilhoso cabelão. Atriz bela em cena, com uma boa energia e desenvoltura é atrapalhada cruelmente pelo cabelo. A menina que interpreta o chefe de polícia consegue ainda que de maneira tôsca e uniforme, uma boa resposta da platéia. Dá pra se dizer que ela joga com o público. A Rainha, Elisa Volpato, devia aproveitar a sua altura com altivez ao invés de curvar-se como o faz diversas vezes, tem uma voz boa, às vezes corre com o texto, às vezes fica interpretando reações esteriotipadas enquanto escuta. O elenco tem, de maneira geral, uma boa energia, uma total dedicação, um gestual pobre, com ambas as mãos e braços executando o mesmo gesto. Como destaquei no título, trata-se, tanto na direção quanto no elenco, de talentos brutos. Todas (+ Shantal) ainda terão mais um ou dois semestres para desenvolverem suas habilidades teatrais, e então, é certo, vão surgir os diamantes.

PEQUENOS MILAGRES DO FABULOSO GRUPO GALPÃO

O fabuloso Grupo Galpão vem de surpresa a Porto Alegre trazendo dois espetáculos praticamente em segredo. Fez uma apresentação de O HOMEM É UM HOMEM no estacionamento da Usina e duas de PEQUENOS MILAGRES no Theatro São Pedro. Esta última, comemora os 25 anos do Grupo Galpão e conta quatro histórias escolhidas entre as mais de 600 cartas que o Grupo recebeu a partir da campanha "Conte sua História" proposta como ponto de partida para a criação do espetáculo que foi dirigido pelo londrinense Paulo de Moraes, diretor da Armazém Cia de Teatro, atualmente estabelecida no Rio de Janeiro e conhecida entre nós pelas montagens de "Alice Através do Espelho", "Pessoas Invisíveis" e, mais recentemente, "Toda Nudez Será Castigada" que integrou a grade do último PoA em Cena. Reconhecido como um dos grandes diretores brasileiros da atualidade, Paulo de Moraes, maneja com segurança e inteligência os mecanismos da direção teatral, mas assistindo seus três ou quatro últimos trabalhos pode-se perceber certas repetições suas soluções e o surgimento de um estilo, uma receita teatral.
Este espetáculo do Galpão é limpo, bem marcado, com uma concepção clara e passagens de cenas bem delineadas. A peça vai conquistando o espectador aos poucos com a história escolhida para servir de ligação entre as outras, "Cabeça de Cachorro", brilhantemente interpretada por Antônio Edson, o querido e carismático Toninho. Em "Casal Náufrago", o público ja está na mão dos atores e totalmente envolvido pela peça. O elenco do Galpão, esbanja segurança e unidade, aproveita sua maturidade para divertir-se em cena. Destacam-se as interpretações de Lydia del Picchia vivendo a esposa Cinira e o ja citado Antônio Edson que interpreta o menino João.
Acima, escrevi o fabuloso Grupo Galpão. O "fabuloso" se refere ao fato de o Galpão ser uma referência clara no teatro nacional e também, já que acompanho seus trabalhos há mais de 15 anos, porque sempre, em todas as montagens, mantém-se um nível de excelência técnica e artística que impressiona. Ver o Galpão sempre é bom. Se, peças como "Um Trem Chamado Desejo"ou "A Rua da Amargura", não possuem o brilhantismo e carisma de "Romeu e Julieta", que foi o espetáculo que projetou nacionalmente o grupo, acho extraordinário que cada uma destas montagens mantenham para o espectador tudo o que se espera do fabuloso Grupo Galpão.

O MELHOR DO TEATRO FOI A DANÇA



E fui ao teatro no sábado. Quando assisti a primeira peça da minha vida, fiquei deslumbrado. Não acreditava no que estava vendo. Como era lindo! Como era lindo! Era uma adaptação de "A Moreninha", que pude ver no Theatro São Pedro, antes da reforma.
Desta vez, ganhei um convite para assistir "Eu Preciso Aprender a Ser Só", com direção de Eduardo Kramer, que é um diretor sempre inventivo tanto na luz quanto na direção. De cara fiquei feliz porque tinha gente suficiente pra quase lotar a Sala Álvaro Moreyra, que está bem equipadinha e coisa e tal, mas conserva pra sempre a sina de "sala". Até que alguém a transforme num teatro, vai ser sempre uma sala. Acho que ja disse aqui que adoro quando vou ao teatro e tem bastante gente pra assistir. Já vi trabalhos anteriores de Eduardo Kraemer. O que mais permaneceu em mim foi "Espancando a Empregada", que vi na mesma sala, com a dupla Renato Campão e a minha diva Arlete Cunha arrasando, destruindo as pseudo estruturas do público e do teatro. O texto de "Preciso Aprender..." é infinitamente mais fraco, raso e batido do que o texto da outra peça citada. Isso faz uma diferença significativa. A falta de comunicação na vida moderna, a condenação a solidão do ser humano no mundo contemporâneo, a obrigatoriedade de ser políticamente correto num mundo cada vez mais defeituoso e fragmentado, são temas abordados em diversos filmes e espetáculos do final do século passado e contemporâneos. É o tema, por exemplo, de "Encontros Depois da Chuva", de Adriane Mottola. O melhor da peça, aquilo que mais me tocou, foram as coreografias. A parte teatro do espetáculo de teatro/dança do Eduardo, estava enfraquecida pelo texto; pelas pálidas performances dos atores, cujas interpretações não alçam vôo em momento nenhum; pela repetição e pela constante multiplicação por três que tornava o espetáculo previsível. Só não era cansativo porque teve o justo tempo de duração. Mas, como eu dizia, foi justamente na parte dança da peça que o espetáculo chegou até mim. Os três homens do elenco eu conheço e sei que não são bailarinos. Marco Antônio Sório colega de longa data, dos tempos do Palhaçadas no Teatro de Arena. Esteve muito tempo afastado do teatro e retornou integrando o elenco de várias peças do Teatro Ofídico. Marco está na hora de fazer um trabalho mais maduro e profundo. Mostrou-se inseguro em relação a marcas e tropeções no texto. Rafael Guerra e Everson Silva são oriundos das oficinas de formação de atores do Depósito de Teatro e conheço bem suas manhas e artimanhas recorrentes. Rafael tem verdade no olhar. Everson ainda mantém uma fala atrapalhada e uma falta de foco e definição no olhar. Os dois têm uma excelente energia e são bastantes perspicazes, mas sofrem de uma mesma doença que não permite que voem mais alto, ou mais fundo. Nenhum dos três dança. Das atrizes só conheço Sayonara Sosa, que também andou um tempo afastada e retornou atendendo o chamado do palco. Aparece com muita energia neste trabalho. Muitas vezes, demasiada energia, eu diria. Interpreta e reage o tempo inteiro, sofre o tempo inteiro. Sua interpretação fica exagerada porque é uma exceção no conjunto. Destoa. Não para em momento nenhum. Fica afetada, muito diferente da interpretação das outras duas, Claúdia Canedo, voz muito bem colocada, interpretação somente adequada, e Débora Geremia que defende com garbo e energia sua parte. A Sayonara eu acho que dança, as outras duas não sei se são também bailarinas. Mas, acontece que quando o elenco dança, ele se comunica. O teatro aparece e se instala. A Sala Álvaro Moreyra vira teatro. A peça acontece. Chato mesmo é a campanhia que marca algumas partes do texto. Não ajuda nada. E aquela mal arranjada locução no final da peça. É horrível. No cenário, básico e multiplicado por três, já aparece um certo descuido, mas a locução é bem pior. A iluminação não é tão inventiva, quanto se espera de um espetáculo do Eduardo Kraemer e torna-se apenas funcional. A direção é apenas correta. Eu, particularmente, prefiro aquele Teatro Ofídico radical na escolha de seus textos, provocações e pesquisa de linguagem.

TORTURANDO CRIANÇAS NO TEATRO INFANTIL

O QUE ESTÃO FAZENDO com o teatro infantil? Será que não tem ninguém vendo o que estão fazendo com o teatro infantil? Será que não tem uma arte-educadora, capaz de se indignar com o que está acontecendo com o teatro infantil? Não tem um psicólogo de pré-escola que tenha a ousadia de botar a boca no trombone para reclamar da programação do teatro infantil? Não tem uma diretora inteligente de uma escola moderna, avançada e inteligente que venha de público manifestar-se sobre o baixíssimo nível do teatro infantil. Não tem um pai, uma mãe que não perceba que não é bom expor o filho a certas peças que estão em cartaz e escreva uma carta para um jornal denunciando o fato. Eu coloquei uma enquete neste blog sobre a qualidade do teatro infantil que se anda fazendo em Porto Alegre. Hoje dei uma olhada num site é fiquei pasmo com a programação. Não vi e não gostei. Ainda bem que eu não sou obrigado a assistir nenhum dos espetáculos em cartaz. Me imaginei criança, com meus pais preocupados com minha formação cultural e me levando obrigado ao teatro para ver uma "pecinha infantil". Que tortura não haveria de ser. Para mim e para eles. Quando crescesse, certamente, eu odiaria o teatro. Há alguns anos atrás, Porto Alegre poderia orgulhar-se do nível de seu teatro infantil em relação ao que é praticado, por exemplo, no Rio de Janeiro, ou em São Paulo, ou em Brasília, que foi onde vi as piores peças infantis. Embalado pela explosão de produções caça-níqueis e besteiróis medíocres que vêm assolando o teatro para adultos, também o teatro infantil vem perdendo contínua e absurdamente a qualidade e o senso crítico e artístico de outrora. Atualmente, o que se vê é a criança exposta, indefesa, diante de tanta mediocridade que lhe é apresentada guela abaixo. É um reflexo do baixíssimo nível da programação televisiva dedicado aos "baixinhos". E, desculpem, mas tenho que voltar aos pais? O que os pais estão achando disso? Será que eles também estão com a cultura embotada e não conseguem distinguir o joio do trigo? Será que não há nada nos estatutos da criança e da adolescência que fale do poder de destruição que este tipo de teatro poda causar na criança e no prazer ou desprezo que ela tenha em assistir uma apresentação teatral? Muitas destas respostas eu não tenho, não sei o que dizer, algumas eu pressinto, e não é nada bom o que eu vislumbro. O teatro infantil, o bom teatro infantil, vem perdendo público ano após ano na proporção direta em que o medíocre teatro comercialóide vem alcançando maior lucratividade. As escolas compram, os pais levam os filhos, as orientadoras dão seu aval, as diretoras assinam embaixo, todos fazem vista grossa e a criança tem que engolir uma pecinha que lhe trata como um debilóide.
M.F.

CLOWSSICOS



CLOWNSSICOS está de volta. Recauchutada (no bom sentido), a peça criada e dirigida por Daniela Carmona, que estreou em 2004, como espetáculo de final de curso do TEPA, retorna à cartaz em montagem profissional da Cia do Giro, com financiamento do Fumproarte. O enredo, clowns interpretam clássicos da dramaturgia universal, é raso, batido. Recurso muito usado no teatro e que aparece em diversas peças, como por exemplo, A Comédia dos Amantes, roteiro de Luís Arthur Nunes, dirigido por Oscar Simch. Daniela Carmona assina novamente o roteiro, adaptação e direção da encenação, além de atuar como uma espécie de protagonista, ou, conforme o seu clow, a que mais aparece. As adaptações das histórias clássicas buscam sempre o riso fácil, mas nem sempre são engraçadas, e utilizam em demasia a figura do narrador, o que prejudica o andamento da peça. Talvez os clowns de Daniela devem-se permanecer com "os temas "menores" que envolvem o riso" e daí fossem bem mais engraçados. O elenco tem três nomes fortes: a própria Daniela, Adriano Basegio e Arlete Cunha. Os outros são João Pedro Madureira, Léo Maciel e Larissa Sanguiné. O primeiro tem que se aplicar mais, muito mais. Os dois últimos, Léo e Larissa, eram formandos na montagem de 2004, e agora se esbaldam divertindo-se pra valer e arrancando bons momentos e risadas da platéia. São os melhores apesar de valerem-se durante todo o espetáculo das mesmas gags e dos mesmos truques. Léo tem uma impagável "cara de criança cagada". Minha honorável amiga Arlete Cunha está deslocada. Não rende e seu clown é o mais apagado da peça. Em geral achei a peça excessivamente gritada. Ou talvez, eu estivesse muito perto do palco. Logo me cansei do roteiro repetitivo e da marcação pobre da peça. Antônio Rabadan se sai melhor com os figurinos do que com o cenário que é apenas uma prática, bonita e alegre ambientação para o espetáculo. A cena de tecido é desnecessária. Assim como achei extremamente desnecessário e gratuito aquele final surpreendente. Confesso que não entendi. Pra quê? Desafiar as estruturas? Romper com a quarta parede? Chocar o público?
Enfim, é um espetáculo honesto, onde aparecem: uma entrega dos atores durante todo espetáculo; uma tentativa de realizar uma comédia acima da média portoalegrense; e sem dúvida, uma vontade intensa de fazer teatro. Parabéns a todos. M.F.

MARGARIDAS SOLTAS NO PALCO



Montagem produzida no DAD, baseada em contos de caio fernando abreu, com orientação de gisela habeyche. assisti hoje ao meio dia na sala alziro azevedo, com bom público, o exercício teatral proposto pelas atrizes, provavelmente algum trabalho ligado a cadeira de interpretação. o texto debochado, contemporâneo e agudo de caio se sobessai. é o melhor da peça. as atrizes, em que pese a nítida falta de uma direção, estão desenvoltas em cena. todas tem uma boa voz e são raros os momentos em que não se entende o que alguma delas fala. as três interpretam a mesma personagem e vão desfiando a história, modernamente, de maneira fragmentada, com rasgos corporais. muriel está muito melhor aqui do que em "roberto zucco", talvez porque se sinta mais dona do processo e do trabalho. está mais à vontade, mais inteira e mais colocada. em silêncio, é sempre a melhor das três. daniela tropeça na própria bebedeira, tira partido cômico de seu texto, mas perde ao representar apenas exteriormente o porre que toma quando flagra o namorado transando com a empregada. fernanda ja começa "sofrendo", mantém-se segura e firme, mas comete aqui e ali alguns exagêros desnecessários. elas poderiam ter se espelhado uma nas coisas boas das outras. muriel parece ser a que alcança mais profundidade. daniela mais comicidade. fernanda mais empatia. falta aquela direção que poderia " limpar", dar brilho e nitidez tanto as interpretações, quanto aos pequenos detalhes criados pela atrizes, que se perdem na falta de foco, numa certa "sujeira" que se faz presente na peça. no final, o público é convidado a dar uma nota de zero à cinco ao espetáculo. então, dando um ponto a cada atriz, descontando-se o ponto que caberia a direção e subtraindo o ponto que caberia a concepção cênica, fica-se com um 3. o que, convenhamos, pra qualquer crítico que se preze, é uma boa nota.

ROBERTO ZUCCO SEM SAL E SEM AÇUCAR



Quando a peça "ROBERTO ZUCCO" estreou, há mais ou menos um ano atrás, como um trabalho de aula realizado no DAD, lembro que a diretora e grande amiga, Patrícia Fagundes, falou que eu deveria assistir porque se tratava de um bom trabalho, Na ocasião acabei não indo. Pois agora, na ressaca pós Poa em Cena fui ver a peça, que tem direção e cenografia de Felipe Vieira de Galisteo, aluno do DAD/UFRGS e mais um jovem que se aventura nas águas do teatro portoalegrense, fazendo parte da novíssima geração de diretores e que de cara já marca um ponto ao escolher encenar um texto de Koltès. A peça é protagonizada por Maico Silveira, jovem ator, também saído do DAD, que tive oportunidade de assistir em três ou quatro trabalhos anteriores.
Como sempre que vou ao teatro, já saio de casa com uma excitação diferente, um prazer, com vontade de gostar, de aplaudir. Então, é uma pena, mas não gostei da encenação. Realmente, em meio a tanta coisa ruim que ja vi acontecer no palquinho da Sala Alziro Azevedo e no desperdiçado Teatro Qorpo Santo, os primeiros minutos de "ROBERTO ZUCCO" impressionam, e até mesmo a peça como um todo, se sobressai positivamente. Mas as idéias, a concepção, as interpretações não se sustentam ao longo do tempo e não oferecem ao espectador a profundidade dramática contida no texto do torturado Bernard-Marie Koltès, tampouco a dimensão humana da sua hiper torturada personagem, Roberto Zucco.
É. Pode-se dizer que são iniciantes e então, vendo a peça por esta ótica, dizer que trata-se de um espetáculo acima da média do DAD. Mas porque esta complacência? Porque dar ao trabalho e a equipe que o fêz esse tratamento benevolente? A peça não fez parte da grade do PoA em Cena? Na minha opinião, ou se dá um tratamento acadêmico ao trabalho, e tratamos como aquilo que de fato é, ou seja: um exercício acadêmico, uma produção obrigatória de final de semestre, realizada com quase nenhum ou pouquissímos recursos (porque a poderosa UFRGS não destina a verba que deveria aos trabalhos e pesquisas do DAD, mas isso é outro assunto). Ou, se considera que o trabalho (e equipe) faz parte daquilo que convencionamos chamar de teatro profissional gaúcho (algo que se situa entre o mais puro amador e um profissionalismo que tenta imitar as tendências do Rio e São Paulo), e eleva-se o gabarito da avaliação. A mim parece que se enche a bola das criaturas e não se oferece um feed-back verdadeiro e honesto sobre as coisas que alcançaram e sobre aquelas que não conseguiram alcançar nesta montagem. A mim parece, óbvio que no elenco tem atores que serão bons e que o diretor virá a ser um bom diretor, mas não isso que coloca em questão. Se tratando de teatro, prefiro levar a discussão a um patamar mais profundo. Não basta dizer que é bom porque são jovens ou iniciantes, têm-se que discutir a fragilidade da concepção cênica. Têm-se que discutir a falta de nuances e muitas vezes a falta de elán que os atores apresentam. Têm-se que discutir o baixo nível de concentração dos atores que se atrapalham e erram textos.
Vou mais longe. Assistindo a peça, pensei que o DAD deveria preparar melhor seus alunos e exigir mais deles. Fiquei pensando se um aluno do TEPA, ou do DEPÓSITO DE TEATRO, ou da TERREIRA DA TRIBO, não faz mais teatro em um ou dois anos de curso do que os alunos do DAD em seus quatro anos? Parece macio fazer o DAD e passar de semestre e formar-se ao fim de um tempo.
Entendo que a peça tem uma matriz boa. Aparece um núcleo de uma boa concepção. É um trabalho completamente honesto que vi com atores substituindo nomes que saíram do elenco. Um atenuante para a falta de ritmo da apresentação que vi, mas não para as coisas que estou apontando.
Outra coisa que pensei com a peça foi sobre ser "fiel ao autor". Já dirigi uma peça de Nelson Rodrigues e, mesmo me sentindo um criminoso, cortei e alterei textos. Com Dias Gomes, foi bem mais fácil. Com Suassuna, nem se fala. Bem, acredito que na encenação de Felipe pouquíssimos ou nenhum corte foi feito no texto. Parece estar na íntegra. Porque então acho que ele não foi fiel ao autor? Porque "ser fiel" não se trata de cortar ou não o texto. Trata-se de ser fiel ao imaginário do autor. A loucura, a viagem do autor. Então, como ja mencionei acima, me parece que a encenação não consegue comunicar a dimensão dramática contida no texto de Koltés. O diretor não consegue extrair de seus elenco a carga dramática necessária à interpretação do texto subjacente, emocional, corrosivo. Até mesmo o protagonista, vivido pelo ator Maico Silveira, carece da profundidade humana, e não consegue dar conta do mergulho vertical de Zucco no lago escuro e tenebroso em que ele se lança com absurdo destemor. Seu Zucco é quase um Rambo, não só pelo figurino (pedido pelo autor), mas pelo comportamento robotizado que apresenta ao decorrer do espetáculo. Parece que falta paixão. Fernanda Mandagará só se sai bem quando vive a mãe do garoto. Apesar de manter sempre o mesmo tom, consegue extrair alguns momentos bons quando interpreta esta personagam, principalmente na cena da praça. Pena que prefere nadar na superficialidade e não mostra a dor, peso e desencanto da mãe que vê o filho baleado na sua cara. Mariana Mantovani e Zé Benetti regrediram da última vez que os vi. Mariana falsa, quase afetada e Zé sem a performance mostrada em "Intensidades" e com duas horríveis mechas de cabelo na frente dos olhos. Muriel Vieira, a namorada consegue alternar momentos em que comunica algum sentimento ao público com momentos de "dizeção" de textos que caem num vazio absoluto. Falo dos atores mas culpo a direção, porque, sempre na minha opinião, o diretor tem obrigação de colocar o ator muito bem em cena. O diretor é o responsável pela profundidade do mergulho do ator (junto com o próprio, é claro).
Uma última observação minha é o fato de parece não ter havido uma pesquisa teórica, um estudo mais aprofundado sobre o autor (embora seja um dos preferidos do diretor), sua obra e sobre o(s) significado(s) possíveis e impossíveis contidos no texto e suas implicações humanas. Não precisava ser assim. A peça foi motivo de estudo dentro do próprio DAD e então, farto material poderia ser encontrado dentro da própria universidade. Além disso, a gente entra no google e digita "Roberto Zucco"e aparecem 21.300 páginas que dissecam a peça e cada uma das suas personagens (eu tb acho pedante escrever personagens no feminino, mas é o correto e não fui eu quem inventou essa frescura). Encerrando, acho que o diretor, Felipe Vieira, poderia ter ensaiado mais, estudado mais, se preparado e ter sido mais preparado pelos professores do DAD para enfrentar a árdua tarefa de encenar Koltès. Mas, em todo caso, acho louvável a decisão de encenar este texto e penso que com mais tempo e recursos com certeza a peça seria mesmo um bom trabalho como disse minha amiga Patrícia Fagundes.

MULHERES INSONES



Posso dizer que acompanho o trabalho do Décio Antunes, que eu me lembre, desde sua encenação de "A Serpente" (de Nelson Rodrigues) que assisti no Teatro de Câmara há muitos anos atrás. Na realidade, eu e o Décio fomos colegas de DAD, lá pelos idos de 1974, 75, 76. Os dois bastante calados, reservados (mais o Décio, do que eu), mesmo assim conseguimos construir uma relação de amizade e coleguismo que se estende até o presente momento.
Relembrando agora de "A Serpente", penso que já naquele antigo trabalho (talvez um dos primeiros que ele dirigiu), o Décio colocava em cena uma ousadia cenográfica, um cenário de forte impacto que dita a concepção do espetáculo. Agora, acabo de ver uma das suas últimas realizações, o deslumbrante "Mulheres Insones". Desta vez, Décio junta um cenário forte com uma coreógrafa calejada que representa o que há de melhor na dança no Brasil e no mundo. Félix Bressan (o mesmo cenógrafo da Trilogia Perversa) parece que acertou desta vez ao assinar um cenário em conjunto com os diretores. Com certeza é seu cenário que mais se integra ao espetáculo e não fica roubando foco, disputando com o espetáculo. Desta vez, Décio estava melhor assessorado do que nunca. Daniel Lion é, ao lado de Coca Serpa, nosso mais importante figurinista. André Birk é medalhão da sonoplastia. Flávio Oliveira não tem mais, em sua casa, onde colocar tantos Açorianos recebidos por suas trilhas sonoras. A Carlota, então, nem se fala. Como diz pomposamente Caco Coelho: "Carlota Albuquerque é nossa Imperatriz da Dança com D maiúsculo." Essa também, eu posso dizer que acompanho de perto. Me odeio por não ter visto Lautrec, mas o resto vi tudo. Não perco. É pura aula de direção.
Lamentei não ver minha amiga Naiara Harry em cena. Fiquei esperando sua entrada durante um bom tempo, até que me convenci que ela não entraria mais. Foi substituída. Pena. Mas, em compensação, estava no elenco uma das minhas bailarinas preferida: Angela Spiazzi. (as outras são: Tânia Baumann e Luciane Coccaro). Belíssima, exata, perfeita. Uma maravilha para os sentidos ver a Angela dançando. Aliás, o elenco da peça é muito bom. Muito coeso e cheio de energia. A pequeninha Didi é excelente bailarina. Ja a vi num espetáculo da Jussara Miranda. Tem presença. Mas carece, como também acontece com Joana do Amaral, de diminuir a representação e a falsa dramaticidade do corpo e do olhar quando imaginam que estão representando um personagem ou uma situação. Gabriela Greco, como não podia deixar de ser, é a melhor atriz e nada deixa a desejar corporalmente. Um corpo bonito que se movimenta plástica e dramaticamente de forma correta. Correta é pouco. Melhor seria dizer: consciente, concentrada. Me agrada sempre ver a beleza e a graça de Gabriela Peixoto que aparece na medida certa. Carismática, sentindo prazer de estar cena, acreditando sempre naquilo que está fazendo. Não exagera dramaticamente e funciona o tempo inteiro. Feliz do Décio que está trabalhando com este elenco disciplinado e brilhante. A peça é o melhor trabalho que ja vi do Décio, é sensível, dramática e tem uma personalidade própria. Que maravilha ir ao teatro e ver um espetáculo assim.
Mas, pra não ficar somente em elogios, que são absolutamente sinceros, vão aqui também alguma críticas. Achei que faltou dramaturgia. Achei que a dramaturgia fica agarrada a poucos temas rodrigueanos e não arrisca. A coreografia arrisca e a dramaturgia não arrisca. Senti falta de texto. Acho que o espetáculo ganharia se fosse colocado mais próximo do espectador. Acho que as ballarinas deveriam estar mais preparadas pra colocar a dramaticidade e o teatro de Nelson Rodrigues em cena. Acho que a coreografia da Carlota se sobrepõem ao espetáculo, como o cenário de Félix Bressan se sobrepunha em As Núpcias de Teadora. E, finalmente, acho que o espetáculo, apesar delas rolarem na areia, fica num meio termo, num bom mocismo que não se coaduna com a profundeza das águas onde nadam as personagens mulheres de nelson rodrigues.

DOMINGO NO TEATRO INFANTIL

Domingo de tarde fui ao teatro. Fui ver A Princesinha Fedorenta. Adorei ver o teatro cheio de crianças e pais e atores e atrizes. Era a última apresentação da temporada, o dia estava chuvoso e tudo contribuía para uma casa cheia. Achei ótimo. Me alegra ver teatro cheio. A peça me cansou. O texto é fraco. O cenário é meramente uma coisa pra ficar atrás. As canções e coreografias são realmente canções e coreografias para teatro infantil, no mau sentido do termo. Idéias batidas, tombos, correrias e uma gritaria do começo ao fim, como se as crianças fossem surdas. Se há coisa que odeio no teatro é atores gritando. E isso que o elenco é formado por gente muito boa. Todos estão bem em cena, cheios de energia e vitalidade. Se empenham e conseguem momentos de brilho e de empatia com a platéia. É bem verdade, que a peça se comunica mais com os adultos do que com as crianças. A direção é limpa, honesta e discreta. Talvez discreta demais. O resultado, na minha opinião, é uma peça que carece de idéias, faltam-lhe coisas que ela não quer ter. Nota-se que é um trabalho que pretende ser o que é. Nada mais. Nada além. E basta? Não é pouco? O que fica para as crianças? A mensagem da canção final? E basta? Pra mim não basta. Cansa.

CONCLUSÕES DO DAD/UFRGS









Dos três trabalhos de conclusão de curso do DAD tive oportunidade de assitir dois. Infelizmente, perdi a peça "DESVARIO" dirigida por Tainah Dadda. Assisti a apresentação de Letícia Chiochetta, uma adaptação de "A Prima-Dona" de Alcione Araújo, e ANÔNIMAS, peça livremente inspirada em contos do escritor Rubens Fonseca, adaptados pela diretora Juliana Brondani.
No primeiro trabalho, a jovem atriz enfrenta um tour de force ao representar uma personagem que se espelha na reverenciada Maria Callas, em um monólogo escrito em 1992, sob encomenda para Marília Pêra, intérprete virtuosística que atua via de regra em musicais onde explora seu talento e a técnica desenvolvidos para o canto e a dança. Já, Letícia Chiochetta somente em alguns momentos parece sair-se bem ao explorar as difíceis melodias que aparecem no espetáculo. Em alguns momentos mostra-se insegura. A atriz aparece concentrada, tem uma ótima projeção de voz, sendo que em pouquíssimos momentos deixa-se de entender o que ela fala, movimenta-se bem e passa com naturalidade do teatro para as canções que interpréta. No geral, me parece que faltou direção ao espetáculo e que, se o exercício de Letícia tivesse a metade do tempo de duração que tem, o resultado seria melhor, pois ao final os aplausos foram apenas protocolares e restou, em mim pelo menos, a sensação de uma peça longa e chata.
A outra peça, ANÔNIMAS, apresentada também na Sala Qorpo Santo, era interpretada por duas jovens atrizes: Fernanda Nascimento e Luísa Herter, e pela ex-dadiana, que atualmente integra a Cia Stravaganza, Sofia Salvatori, todas sob direção da formanda Juliana Brondani. O que vi foi um trabalho incipiente em todos os sentidos. Desde uma fraca dramaturgia, que era mau arranjada, falhava nas costuras do espetáculo e não propiciava o crescimento nem os clímaxes das cenas à luz, que, ao meu ver, não soube aproveitar com eficiência os parcos recursos de iluminação com os quais a poderosa UFGRS segue dotando uma sala tão boa para experimentos teatrais em palco italiano. Ou não. Já assisti várias montagens que ousaram além do palco italiano... A direção não consegue extraír o melhor de cada atriz e isso faz com que cada uma delas permaneça no mesmo registro dramático durante praticamente todo o espetáculo. Fernanda Nascimento consegue alguma empatia com a platéia somente no último terço da peça, e ganha vida e brilho na cena com o plástico bolha que ela aproveita muito bem. Luísa Herter, tem uma bonita figura em cena e, apesar de vê-la pela primeira vez, me bateu que poderia ir mais além do que foi. Seu corpo se move bem, soa voz é boa, embora a emissão, não seja e nem sempre suas ações são críveis. O fato de ja ter dirigido, a terceira atriza da peça, Sofia Salvatori, na montagem da peça BLITZ (de Bosco Brasil), confirmou-me a certeza de que todas poderiam ter dado mais si. Suado um pouco mais. Ensaiado um pouco mais? Sofia, que faz um trabalho brilhante em "TEUS DESEJOS EM FRAGMENTOS", dirigido pela minha grande amiga e colega Adriane Mottola, está apenas eficiente. Credito isso a direção, a dramaturgia, a repetição excessiva de marcas e aos repetidos movimentos multiplicados por três que deixam o espetáculo previsível.
Para encerrar, quero dizer que acho que o problema maior está no DAD. Na aprisionante estrutura acadêmica , na fracas exigências da orientação, na existência de professores substitutos (ja que a universidade, ao invés de abrir um concurso e fixar um quadro de bons professores, prefere contratar alguns professores de dois em dois anos), na falta de ensaio, na falta de tempo e amadurecimento das coisas que ali são produzidas e, principalmente, na falta de fazer teatral que acomete o Departamento. Já disse em outro texto e repito aqui: qualquer aluno da Terreira da Tribo ou do Depósito de Teatro faz muito mais teatro em um ano do que o os alunos do DAD em quatro. É pra se pensar ou não é? Que diretores e atores estamos formando?

TEATRÃO NO TEATRINHO


Fui até a Sala Carlos Carvalho, na sucateada Casa de Cultura Mário Quintana, assistir "As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant". De cara fiquei feliz porque havia bastante público na fila do teatro e porque, ao entrar na sala, me deparei com o cenário limpo, clean, bem distribuído e bem acabado de Felipe Helfer. Depois, durante a peça vi que o cenário se adequa perfeitamente a peça, até determinando bastante a concepção da mesma, fato bastante comum no teatro. A peça, que foi anteriormente (há mais ou menos 20 anos) apresentada em Porto Alegre, se não me engano, no Teatro da Ospa, com uma performance arrasadora de Fernanda Montenegro interpretando a protagonista, Petra von Kant, que nesta montagem é vivida por Bettina Müller, é dirigida por Airton de Oliveira. Na minha opinião, a direção é limpa, óbvia e opta por uma linha caretíssima que lembra, guardada as devidas proporções, os espetáculos chamados de "teatrão". Penso que o Airton distribui bem as atrizes no espaço e as oferece sempre em angulos favoráveis aos espectadores, busca o tempo todo uma limpeza e um acabamento nas cenas, mas vejo também que se limita a marcações manjadas que nunca surpreendem, não inovam, nem subvertem qualquer regra dos mais básicos manuais de arte dramática. Fica aquele espetáculo correto, meio novela da oito, que nunca explode. Exige pouco ou apenas o básico de suas atrizes, todas elas com condições de render mais do que estão fazendo ao limitarem-se em atender o feijão com arroz realista solicitado pela direção. Incrivelmente, mesmo trabalhando numa sala tão pequena e tão próxima do público, tendo um cenário com espelhos que duplicam o publico, Airton opta pela quarta parede e, ao mesmo tempo que isola seu grupo de atrizes na "casa" de Petra Von Kant, isola também o espetáculo, que na minha opinião ganharia em teatralidade e comunicação emocional se buscasse o contato direto com o público. Mas isso é uma opção do diretor. Bettina Müller no papel da sofredora Petra Von Kant não chega a suar. Parece que tira de letra, esta segura, desenvolta e... normal. É notoriamente uma boa atriz, já testada anteriormente em outros papéis, que possuiria maturidade suficiente para render mais, para que se extraísse mais calor da sua interpretação. Me parece nitidamente "interpretando" e isso me distancia do sofrimento da rejeitada Petra. Me chama sempre atenção o trabalho da Janaina Pelizzon. Acho-a uma excelente atriz que está merecendo um trabalho a altura do seu talento. Entra na peça muda e sai calada e tira partido a cada intervenção. Aparece na medida certa, com segurança e presença em cena. Rosa Campos Velho aparece na última cena como a perplexa mãe Von Kant, e não mostra esforço nem prepocupação em extrair alguma mais profunda de seu personagem. Parece contentar-se com o pouco que dá. Marley Danckwardt, a aristocrata Sidonie, a amiga que apresenta Karin a Petra, tropeçou mais de uma vez no texto, parecia um tanto desconcentrada e com uma interpretação desafinada e vazia que só alcançou algum efeito na cena final, pouco antes de retirar-se da casa de Petra. Simone Telecchi, também usando figurinos de gosto duvidoso, se desdobra em poses pretensamente sensuais para viver a aspirante a modelo Karin. A gente fica sem saber o que levou Petra a se apaixonar tanto por ela. Não mostra o carisma necessário, fica entre uma boboca e ignorante mocinha do interior e uma aproveitadora de plantão. Concordei plenamente com a opinião da filha de Petra (interpretada apenas corretamente por Aline Jones) que diz que a moça é vulgar. Na montagem carioca de 1982, quem fazia Karin era a Renata Sorrah e depois a Cristiane Torloni. As duas ofereciam mil motivos não só para que Petra se apaixonasse, mas também para que a gente se apaixonasse por ela(s). De qualquer forma, parabéns para Airton de Oliveira e sua equipe pelo trabalho digno, honesto e correto.