quinta-feira, 24 de abril de 2008

MAIÊUTICA



Maiêutica[Do gr. maieutiké (téchne).]Substantivo feminino 1.Processo dialético e pedagógico socrático, em que se multiplicam as perguntas a fim de obter, por indução dos casos particulares e concretos, um conceito geral do objeto em questão. [Cf. ironia socrática.] 2.Obst. V. obstetrícia. (Dicionário Aurélio)


Guadalupe Casal e Maíra Prates, duas jovens atrizes, sob orientação de Maico Silveira, estão em carta em cartaz no Teatro de Arena com MAIÊUTICA. Uma peça curta que pretende explorar "as divergências da relação mãe e filha num passeio poético guiado pela infância", conforme pode ser lido no delicado programa do espetáculo.
As duas atrizes são também as responsáveis pela dramaturgia, que, na minha opinião é o ponto fraco da peça, já que os textos selecionados e/ou a junção deles, não oferece um crescimento, um desenvolvimento progressivo nas idéias que o espetáculo pretende dialogar com o espectador. Não oferece também maiores dificuldades para a interpretação das atrizes. Passeios pelo universo feminino são tão abundantes no teatro quanto as chamadas peças de casal. Ou se encontra, dramaturgicamente, uma idéia com um quê de originalidade ou com textos que aprofundem esta discussão ou se cai na mesmice das coisas já faladas.
A encenação, como tantas outras, conta com poucos recursos, e opta por trabalhar apenas com alguns elementos de cena. O figurino assinado por Guadalupe Casal é apenas funcional. A iluminação, criada por Carol Zimmer, não acrescenta nada, não acentua climas, não vai além de iluminar a cena. Como o diretor não se assume como tal, e chama-se apenas de orientador cênico, não se pode comentar a direção. "Orientação" me parece um eufemismo para não assumir o compromisso com a real direção de uma peça, e também para dividir a responsabilidade com os atores. No caso, as atrizes.
As duas interprétes se mostraram excessivamente tímidas. Talvez por tratar-se da estréia. Com certeza, com a repetição das apresentações, elas irão fortalecendo suas interpretações. Gaudalupe Casal se mostra mais expressiva e apresenta mais nuances quando das acontecem mudanças de idade e de situação. Maíra Prates aparece melhor como criança do que como adulta ou uma mulher solitária mãe de uma adolescente. Transita com demasiada semelhança pelas direfentes fases solicitadas pelo texto.
O resultado é uma peça que não empolga, que carece de criatividade, de aprofundamento interpretativo, de direção e de uma dramaturgia mais sólida e, com a simplicidade de um risco de giz traçar um espetáculo com uma teatralidade mais exuberante.

ALZIRA POWER - DE VOLTA AO PASSADO






No último domingo fui ao Theatro São Pedro assistir Cristina Pereira interpretando ALZIRA POWER, peça escrita em 1969 por Antônio Bivar. Foi uma verdadeira viagem ao passado, pois no longinqüo ano de 1977, tive minha estréia como diretor justamente com esta peça. No elenco estavam Júlio Conte e Rosa Maria Lima. Velhos tempos.
Antônio Bivar, participante ativo do movimento de contra-cultura dos anos 60 e 70, ganhou um prêmio Molière como autor de "ABRE A JANELA E DEIXA ENTRAR O AR PURO E O SOL DA MANHÃ". Com a grana do prêmio pegou sua mochila e foi pra Londres viver as loucuras da geração paz e amor no auge do movimento hippie, flower power, lsd, che guevara e comunidades psicodélicas. Dramaturgo considerado promissor pela crítica, escreveu uma dezena de peças, quase todas numa linha de contestação ao "estabelishment", das quais, "ALZIRA POWER" é uma das mais conhecidas.
A peça, que também atende pelo título de "O Cão Siamês", teve sua estréia em 1969 e conta a história da quarentona e solitária Alzira, que depois de aposentada de seu trabalho nos Correios resolve rebelar-se contra os medíocres parâmetros de uma vidinha classe média, e despeja um pouco de sua agrassividade e toda sua libido quando recebe a visita de Ernesto, simplório vendedor de consórcios de automóveis.
A versão apresentada nesta montagem, que fez sua estréia nacional no Theatro São Pedro, é absolutamente fiel ao texto e as indicações quanto ao cenário, trilha sonora, climas e figurinos utilizados. Nada de novo. A direção de Gustavo Paso se restringe a seguir tudo aquilo que é indicado pelo texto, traçando uma marcação limpa e um espetáculo apenas correto.
O centro por onde gira o espetáculo é a interpretação segura da experiente atriz Cristina Pereira, que prefere explorar a faceta mais aparente e superficial de Alzira, do que descer mais profudamente pela alma da personagem. O vendedor Ernesto é interpretado por Sidney Sampaio, um ator jovem que, se por um lado, não compromete o espetáculo com sua tênue construção, por outro, em momento algum consegue emplogar o público com as idéias que tenta defender durante a peça. Ernesto é mesmo mais "fraco" do que Alzira. Sidney se comporta exatamente assim diante da verve de Cristina Pereira.
Enfim, nada de novo no país Teatro. Quem foi assistir não pode reclamar que perdeu seu dinheiro e seu tempo, e aqueles que não foram também não precisam arrepender-se. Ah! O espetáculo é muitíssimo melhor do que a foto distribuída pela divulgação.

A MEGERA DOMADA




Jamais deixaria de assistir A MEGERA DOMADA, não só porque a diretora, Patrícia Fagundes é minha amiga, mas porque admiro e acompanho o trabalho dela desde o início de sua carreira. Suas peças sempre foram certeza de bom teatro. Além disso, outra grande amiga, a atriz Sandra Possani entrou na peça, como protagonista, substituindo Roberta Savian. Então, assisti o espetáculo na penúltima sessão de sua temporada de estréia no Teatro de Câmara, com casa maravilhosamente lotada.
Dizer que Shakespeare dispensa apresentações é um lugar comum que cabe muito bem aqui neste parágrafo onde eu deveria tecer algumas considerações à respeito deste autor tão estudado, encenado e respeitado no mundo inteiro, e de quem o leitor poderá informar-se em inúmeras páginas da internet. Porém, tendo vivido apenas 52 anos e escrito 35 peças teatrais entre as quais pelo menos 4 obras primas da literatura universal, é natural que nem todas sejam incluídas nesta categoria, e apareçam, na minha mortal opinião, como obras menores dentro da magnifíca obra do chamado bardo inglês.
A MEGERA DOMADA, segundo a bíblia shakespeariana escrita por Harold Bloom, é uma de suas primeiras comédias e é "tanto comédia romântica quanto farsa" pois "a rispidez física entre Kate e Petrucchio possui um apelo básico (farsa), mas o humor que caracteriza seu relacionamento é altamente sofisticado" (comédia romântica). A história da peça, que ja foi apresentada sob a forma de tele-novela com o título de O Cravo e a Rosa, é simplíssima: um pai, Batista decide que a filha mais jovem, Bianca, só casará depois que a filha mais velha, a megera intratável Catarina seja desposada. Petrúcio, um nobre falido, acaba aceitando a mão de Catarina e todas as encrencas que virão junto. Um novelão bem ao gosto burguês (da época e atual)recheado de trocas de identidade, mentiras inverossímeis e duelos verbais espirituosos à moda parisiense, tão afiados quanto anacrônicos.
A encenação é moderna e até mesmo glamourosa, com os atores comportando-se com uma certa displicência naturalmente ensaiada. Penso que Antonio Rabadan se sai melhor com a criação dos figurinos deste espetáculo do que com aqueles que foram criados para o espetáculo anterior, apesar de que é um tanto batida a opção (não sei se dele ou da diretora) de trabalhar com preto, cinza, branco e vermelho. De qualquer maneira, os figurinos são adequados, bonitos e bem acabados. O cenário, ou melhor a ambientação cenográfica, assinada por Paloma Hernandez, se não se destaca, também não atrapalha, servindo as necessidades exigidas pelo espetáculo e auxiliando-o com sua leveza e mobilidade. EduardoKraemer, um dos meus iluminadores favoritos por sua inventividade, se mostra discreto e também a serviço do espetáculo, sem oferecer aquele brilho que ja vi em outras ocasiões.
Esta é a terceira incursão da diretora Patrícia Fagundes pela obra de Shakespeare, já que anteriomente encenou Macbeth, com o subtítulo de Herói-Bandido, depois O Sonho de uma Noite de Verão, e agora coloca em cena esta versão de A Megera Domada. As três montagens buscam recuperar o apelo popular que as obras gozavam na época elisabetana, bem como uma linguagem contemporânea para atingir o espectador moderno. Acho que a busca continua e que o adjetivo "popular" poderia ser analisado à fundo e definido com precisão, assim como a linguagem contemporânea, que não deve ser apenas, tenho certeza, inserir uma canção moderna, mencionar o furacão Catrina e acrescentar alguns cacos ou gírias modernas ao texto. Sem dúvida, a direção de Patrícia Fagundes sobre o espetáculo é firme e bem orientada no sentido de extrair uma teatralidade e uma comunicação viva do espetáculo com a platéia. No entanto, parece seguir (o que aliás, está muito na moda) uma receita, uma fórmula, ja inventada para o espetáculo anterior: a boate no "Sonho..." e a casa de shows, neste.
O elenco, que brilhava e cativava os espectadores no "Sonho...", agora apenas executa com presteza as marcações e determinações cênicas. Todos estão bem, mas o único que brilha e ganha a platéia é Felipe de Paula, que utiliza o corpo, a voz e inventa outros recursos para extrair gargalhadas do público. Explora com eficiência criativa as nuances de seu papel. A turma que arrasava no sonho: Álvaro Vilaverde, Lisandro Belotto (que tinha uma cena impagável) e Leonardo Machado estão apenas desempenhando aquilo que sabem como bons atores que são. No mesmo caso se encontram Carlos Mödinger e Rafael Guerra. A bela Elisa Volpatto está apenas bela e não tira maiores partidos de sua personagem, contentando-se em ser apenas a "mocinha". Heinz Limaverde aparece desconfortável e é o mais displicente em cena, não atingindo nem de perto sua performance da peça anterior, tampouco aquilo que se espera ao ver seu nome na ficha técnica, pois trata-se de um dos melhores atores que conheço, com seu talento ja testado e comprovado em uma gama variadíssima de espetáculos. Sandra Possani, ainda preocupada com as marcas e textos, vai demorar mais algumas apresentações para mostrar seu inegável talento.
O resultado é um espetáculo bonito, agradável, que não empolga em momento algum. Não decola. É, certamente ágil, divertido e comunicativo, mas não atinge a potencialidade cômica do texto, que aliás, é pronunciado pelos atores, salvo raras exceções, de cabo a rabo, com excessiva velocidade. Enfim, tanto por seu conteúdo, quanto por sua forma atraente e glamourosa, é uma peça destinada ao sucesso.

A CRÍTICA DA CRÍTICA



Depois de escutar com o devido respeito e atenção as palavras proferidas na palestra apresentada na noite de terça (8/4) no Teatro do SESC, pela Sra. Bárbara Heliodora, que como apregoa a divulgação trata-se de “uma das críticas teatrais mais temidas e respeitadas do Brasil”, fiquei ruminando algumas coisas: é absolutamente inegável o profundo conhecimento técnico, teórico e prático que ela possui sobre o teatro. Sua vasta cultura, erudição, preparo e brilhantismo ficaram patentes na leitura do texto que ela criou, creio eu, especialmente para o encontro promovido pelo ARTESESC. Defendeu a função da crítica, com um texto elegante, claro, no qual demonstrava suas crenças através de um pensamento fluente, inteligentemente encadeado, sem deixar de ser um tanto esquemático. É indiscutível a vivência teatral de quem assiste, anualmente, perto de 100 espetáculos, como ela mesma afirmou. É simplesmente incontestável a importância do nome Bárbara Heliodora tanto para o exercício da crítica em particular, quanto para o teatro brasileiro em geral. Dona Bárbara é uma apaixonada confessa pela arte teatral. Diz amar o teatro e torna visível este amor com a maneira inflamada e parcial com que manifesta sua visão sobre o que considera bom ou ruim na arte dramática. Na verdade, se detecta que ela ama mesmo o bom teatro, tanto quanto detesta aquele teatro que na sua visão pessoal é ruim. Sua veemência atinge as raias do dogmatismo e da pretensão de ser a dona de uma verdade única, embora negue isso com a mesma ênfase. Para quem lê, mesmo que esporadicamente as suas críticas nas páginas do Jornal O Globo, como é o meu caso, é possível perceber, nas linhas e nas entrelinhas, que por vezes, ela manda às favas a sua apregoada isenção e objetividade, e se deixa levar por momentos de extrema vaidade pessoal, arrogância, crueldade, deboche e até mesmo uma transbordante e destrutiva maldade. Ela diz que todos somos críticos informais quando assistimos qualquer obra de arte, e pensamos se gostamos ou não gostamos, ou quando expressamos nossa opinião numa mesa de bar, o que não deixa de ser uma verdade. Mas querer comparar uma discussão entre amigos num bar com o preto sobre o branco das páginas de um jornal de circulação nacional é, no mínimo, querer minimizar o seu poder diante da platéia.

FIM DE JOGO



Meu querido professor Luiz Paulo Vasconcellos assina a direção do espetáculo "FIM DE JOGO", de Samuel Beckett, com a presença de Zé Adão Barbosa à frente de um jovem elenco. A montagem estreou em junho de 2007 inaugurando a Sala de Apresentações do Tepa (Teatro Escola de Porto Alegre).
O diretor é figura carimbada na história do teatro portoalegrense, professor universitário, duas vezes coordenador de artes cênicas, autor de um dicionário de teatro e dono de um extenso currículo como diretor e ator. Conheci-o pelos idos de 1976 quando foi meu professor e tive oportunidade de assistir vários de seus trabalhos desde aquela época. Na encenação deste "jogo" beckttiano me parece que o Prof. Luiz Paulo, não quis arriscar um milímetro das suas fichas. Construiu uma montagem esquemática, quadradinha, eficiente, comunicativa seguindo fielmente as rubricas e indicações do autor. É quase um manual para se entender Beckett. É uma peça bem feita, com tudo no seu lugar, orientada por quem entende do riscado, por alguém que conhece a carpintaria teatral mas prefere ficar na comodidade careta do que procurar novos sentidos e possibilidades.
Para quem, assistiu a inesquecível montagem da Terreira da Tribo, com a hors concours Arlete Cunha no papel Hamm e Paulo Flôres vivendo Clov, ou a montagem de Rubens Rusche que esteve na terceira edição do PoA em Cena, em 1996, ou ainda, a belo ambiente criado para a encenação de Gerald Thomas, esta atual versão da peça nada acrescenta. Aliás, só não deixa a desejar, pela interpretação irretocável do excelente ator Zé Adão Barbosa. Com certeza auxiliado pela talentosa atriz Sandra Dani e pela caracterização precisa criada por Nikki, um verdadeiro mago da maquiagem, Zé consegue em pequenos detalhes de voz e expressão nos comunicar a dimensão da amargura, tédio, ressentimento e inutilidade da vida, contida nesta que é uma das peças mais conhecidas de Samuel Beckett. Um agradabilíssimo prazer assistir a suave entrega de Zé Adão Barbosa em cena. Jeffie Lopes, um pouco pela sua juventude, outro tanto por sua... tem dificuldade em transmitir o drama vivido por Clov, não tem a dimensão humana da personagem. Já os pais de Hamm, Crissiani Sgarbi e Vinicius Meneguzzi, se beneficiam da caracterização e aparecem bem em seus latões.
O cenário criado pelo diretor e por Jeffie Lopes imita a peça e segue as determinações e exigências da peça tornando-se apenas um arremedo do que poderia ser o ambiente que abriga o embate entre Hamm e Clov. Peca na altura, como aliás a maioria dos cenários das peças de Porto Alegre. E, peca na cor, que, como disse uma amiga minha, é "cor de cocô". A iluminação do criativo Eduardo Kraemer é bonita e eficiente.
Todos estão de parabéns pela realização. Um espetáculo sólido, honestíssimo, que conta com a interpretação poderosa de Zé Adão Barbosa e a mão segura do Prof. Luiz Paulo. Parabéns ao Tepa pela iniciativa de produzir um espetáculo e inaugurar sua Sala de apresentações.

E LÁ SE VAI MAIS UM PORTO VERÃO ALEGRE



Iniciado em 07 de janeiro, encerrou bem no finzinho de fevereiro, mais uma edição do Porto Verão Alegre, a nona edição desta engenhosa idéia do trio Rogério Beretta, Flávio Bicca e Zé Victor Castiel, que enxergaram uma modificação dos hábitos de verão dos portoalegrenses e vislumbraram um nicho de público para o teatro nos meses de janeiro e fevereiro. Assim, esta é a nona edição do evento que organiza e coordena uma mega programação cada vez mais inchada e recheada de trabalhos, no mínimo, de gosto duvidoso. Se por um lado, foi uma sacada genial que, inegavelmente, contribui com a movimentação teatral no período de verão, por outro podemos nos perguntar se a extensa programação não compromete a eficácia da ação.
Convenhamos que 0 público tem dar sorte para encontrar, no meio de tanta coisa ruim, as poucas boas atrações da programação. Ou então, ele, o público, é um pouquinho mais informado e compra ingressos daqueles espetáculos que ele, o público, mais conhece e/ou ouviu falar. Corre-se o risco de assitir algo que faça o vivente nunca mais querer pisar num teatro ou, por outra, nunca assistir nada diferente do que os "grandes sucessos".
Talvez, a contribuição fosse maior, se o Porto Verão Alegre se concentrasse mais na qualidade e menos na quantidade.

O VERDADEIRO LOUCO DA RUA DA LADEIRA



Fui ao Teatro do SESC assistir "DIÁLOGOS DE UM LOUCO" para me reencontrar com dois velhos conhecidos: Qorpo Santo, o autor, que me foi apresentado por si mesmo através de suas peças, poesias e textos auto biográficos; e Marcos Barreto, diretor e ator santamariense que aterrizou em Porto Alegre nos idos de 1989. Qorpo Santo conheci ao encenar, em 2005, o espetáculo QURIOZAS QOMÉDIAS, onde reuni várias de suas peças, misturando-as com fatos reais e inventados sobre sua vida a a partir das coisas que ele escreveu sobre si mesmo. Já Marcos Barreto foi meu professor numa oficina de interpretação (no tempo que acontecia ensaios e oficinas de teatro no Auditório Araújo Viana) que ele orientou logo que chegou à cidade trazendo na bagagem e no currículo o aval de ser ex-integrante da Cia. Ópera Seca e ter trabalhado com o super diretor Gerald Thomas. Barreto colocou em cena um memorável espetáculo chamado "LOVEMENBER", no qual assinava o texto, o roteiro e a direção. Mais tarde foi coordenador de descentralização da cultura e diretor da mais complicada edição do Porto Alegre em Cena que ja se viu. Mais recentemente passou a residir no Rio de Janeiro, que foi onde estreou o trabalho apresentado no Teatro do Sesc.
Não tenho como separar emocionalmente o que sinto ao ver uma peça de Qorpo Santo depois do mergulho vertical que fizemos na obra e na vida dele para produzir o espetáculo. Sob este aspecto, não gostei do tratamento que o espetáculo dispensa a Joaquim José de Campos Leão, nem do tom da interpretação que Marcos Barreto para os diversos personagens, pois são superficiais e reproduzem o mesmo pensamento retrógrado que via Qorpo Santo meramente como um louco ou no máximo como um simples personagem bizarro, um "esquisitão", como era chamado pelos seus contemporâneos, ou "o louco manso da Rua da Ladeira" pinçado de uma crônica daquela época e republicada no livro de crônicas "AS AMARGAS, NÃO..." do nosso Álvaro Moreyra. Difícil escrever sobre. Parece que vemos dois QS completamente diferentes. É claro, que entendo que isso é possível, pois se o próprio QS se via e se colocava nas peças como sendo vários, múltiplos de si mesmo, então, é claro que as visões tem que ser diferentes, mas é patente a superficialidade do espetáculo, são patentes as derrapadas e esquecimentos de texto do intérprete que consegue graças ao carisma pessoal extrair algumas risadas da platéia. Achei a dramaturgia de Paulo Bauler fraca na forma e no conteúdo. Achei a proposta cênica e a direção bastante frouxas como convém ao ator que se autodirige e ao diretor que orienta a si mesmo. Faltou uma direção mais firme e exigente com relação aos maneirismos e facilidades do interpréte e que, principalmente, cobrasse que Marcos Barreto tivesse, pelo menos, fôlego para atravesar o espetáculo. Enfim, pra mim, o espetáculo não traduz a atmosfera de uma poética tão feroz e enlouquecida quanto a de Qorpo Santo. O espetáculo da maneira como se apresenta não oferece para o espectador moderno o ser torturado e excitado ao extremo que vivia numa Porto Alegre em formação, que tinha, em 1860, quando ele era adulto, uma população de 13.000 pessoas, das quais menos de um quinto sabiam ler e escrever, uma Porto Alegre com escravos construindo o Mercado Público e a classe rica fazendo doações para a construção do Theatro São Pedro. Os personagens são apresentados por Barreto de forma displicente e debochada, que, de maneira nehuma, passam para o público a dimensão humana de cada um deles. Não aparece o Qorpo Santo erotômano, o Qorpo Santo que fez tremer os tabus da época, que clamava pelo divórcio, pregava a liberdade feminina, e escreveu 17 peças de teatro em menos de um mês e meio e foi interditado pela mulher, e criou seu próprio jornal e imprimiu, e publicou sua própria obra.